Cândido Escola
Teses
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental | A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental |
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| Por Ana Carla Silvares Pompêo | |
| 31 de maio de 2004 | |
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Para Bion (1961) o medo ou o pavor possível de nomear é algo suportável psiquicamente, o que não ocorre no "terror sem nome", que faz com que o medo anterior se transforme em algo de dimensões piores, pois o incompreendido se torna o incompreensível. Dá-se um desenvolvimento normal se a relação entre o bebê e o seio permitir que o bebê projete, na mãe, a sensação, digamos, de ele estar morrendo; e que o bebê reintrojete esta sensação, após a permanência no seio ter feito com que a mesma se torne suportável para sua psique. Se a projeção não for aceita pela mãe, o bebê sente que se retirou da sensação dele, de estar morrendo, o significado que esta possui. Consequentemente, reintrojeta não um medo de morrer, agora tolerável, mas um pavor indefinível, sem nome (Bion, 1961: p.134). Britton (2003) amplia o conceito de Bion, para qualquer situação na qual a experiência do bebê for invalidada: Em todas essas situações o não compreendido se transforma para o bebê no incompreensível. Poderíamos dizer, então, que há o terror da falta de nome de tudo. Se, num modo esquizoparanóide, essa distorção da compreensão é vivida pelo bebê como um ataque, mais do que como uma deficiência, o bebê sente a existência de uma força que existe para destruir a possibilidade de autoconhecimento e a possibilidade de achar significado. Vemos isso se repetir na transferência, quando a falha do analista em compreender o paciente de modo preciso é vivenciada pelo paciente não apenas como uma deficiência do analista, mas como um ataque à integridade psíquica do paciente (p.88). O autor introduz um conceito importante para o trabalho analítico, que penso poder ser generalizável para o contexto institucional e para o trabalho nas equipes interdisciplinares, no que se refere a uma busca de consenso na tomada de decisões, negociações com os gestores, assim como nas discussões que envolvam diferenças teóricas ou de objetivos dos grupos. Ele trata da ansiedade gerada por uma falta de compreensão do analista dentro do contexto clínico (em relação ao temor da compreensão pelo paciente psicótico dos objetos primários: cena primária): Passei a acreditar que existe uma regra geral, oriunda da ansiedade acerca da falta de compreensão, que se aplica a todas as análises: é a de que a necessidade de concordância é inversamente proporcional à expectativa de compreensão. Quando a expectativa de compreensão é alta, a diferença de opinião é tolerável; quando a expectativa de compreensão é razoavelmente alta a diferença é razoavelmente tolerável; quando não há qualquer expectativa de compreensão a necessidade de concordância é absoluta. Nas análises em que a necessidade de concordância é sentida como absoluta e suprema, ela só pode ser alcançada pela obediência ou tirania; aí o que se exige é submissão e não compreensão. Isto é alcançado pelo paciente ou submetendo-se de modo servil ou controlando tiranicamente. Alguns pacientes praticam os dois métodos, em alguns momentos a tirania, em outros a submissão (p.90). Quando o analista ou os profissionais de saúde (gestores ou equipes interdisciplinares) insistem na postura de não-compreensão, ocorre para Britton (2003), o seguinte fenômeno: O analista a seguirá dedicadamente colocando em palavras a experiência subjetiva da paciente, enquanto ele, analista, se sente impedido de fazer quaisquer outros comentários, caso contrário a paciente se sentirá impelida a sacrificar sua própria experiência subjetiva e incorporar, em vez disso, a descrição que ele dá dela. Isso então ela tomará para si como um corpo estranho implantado no lugar da sua própria alma. Aí sua assinatura se tornará uma réplica da idéia do pai do que sua assinatura deveria ser (p.90). O autor faz uma analogia do aparelho psíquico com o sistema imunológico, no que se refere ao desenvolvimento de alergias e de doenças auto-imunes, no qual o sistema imunológico identifica seu próprio tecido como agente agressor e o ataca. A partir desse conceito ele promove uma reinterpretação do conceito de -K bioniano: ...eu tenho uma sugestão quanto ao que -K poderia ser, ou seja, aquilo que subjaz ao que eu chamei de atopia psíquica - uma antipatia a conhecer qualquer coisa que seja diferente. Acredito que essa variável na constituição individual, a contrapartida psíquica para a tolerância e intolerância do sistema imunológico somático, possa contribuir para dificuldades na continência... (p.91). Zimerman (1999) define o conceito de Continente e Conteúdo: As necessidades, desejos, demandas, angústias e defesas de todo e qualquer paciente, mais particularmente a de pacientes muito regredidos, constituem um 'conteúdo', que urge por encontrar um 'continente', onde elas podem ser acolhidas. Cabe ao analista o papel e a função de ser o continente do seu analisando. No entanto, reciprocamente, também o paciente funciona como continente do conteúdo do analista, como pode ser exemplificado com o acolhimento que ele vier a fazer das interpretações daquele(Zimerman, 1999: p.351). Outro conceito fundamental de Bion (1961) no que se refere ao contexto institucional é o de establishment , que representa uma situação de poder, de estabilidade e de organização, que pode ser tanto mental, quanto institucional. Refere-se a tradições e normas estabelecidas de acordo com um determinado contexto social e cultural. Essa estabilidade é ameaçada sempre que surge uma idéia nova. 66,67,68,69
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| Última Atualização ( 23 de junho de 2008 ) |
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