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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Um conceito fundamental para o trabalho terapêutico é o de Rêverie, que é definido como a capacidade materna de transformar as angústias do bebê, colocadas nela através do mecanismo de identificação projetiva. Rêverie refere-se à capacidade materna de digerir estas angústias persecutórias e transformá-las em ações de cuidado, acolhimento, em pensamentos e símbolos, ou seja, em algo que possa chegar ao bebê com um sentido positivo ou em forma de uma angústia tolerável. Envolve a capacidade materna de transformar os chamados elementos beta (protopensamentos, agitação psicomotora, actings out , somatizações, objetos bizarros, etc.) em elementos alfa, ou seja, em objetos psíquicos por excelência.

A função alfa seria a função fundamental do trabalho analítico, cujo objetivo é ensinar o paciente a pensar os pensamentos, tirando-os da condição de meras ruminações.

A mãe que não consegue exercer adequadamente a Rêverie, acaba por não devolver ao filho elementos alfa, devolve os elementos beta que ele havia colocado dentro de sua mente por meio da identificação projetiva, acrescidos de seus próprios elementos beta. Esse estado foi chamada por Bion (1961), de "terror sem nome" e quando persiste, acaba impossibilitando - segundo Britton (2003) -- a entrada do bebê na posição depressiva, assim como na resolução do complexo de Édipo primitivo kleiniano, o que também afeta a capacidade de simbolização. Isso se deve ao fato de que a alteridade do objeto traz um problema, pois os objetos internos, uma vez que se tornam "indigestos", têm que ser expelidos via identificação projetiva, o que empobrece o self . O retorno das projeções não digeridas pode ser sentido como um "corpo estranho" (Heimann, 1942).

No desenvolvimento normal, a percepção que a criança tem do fato de os pais se juntarem independentemente dela une o seu mundo psíquico. Cria um mundo em que diferentes relacionamentos de objeto podem ocorrer, ao invés de mundos seriais monádicos, cada um com a sua própria relação de objeto. O triângulo da família primária fornece à criança dois elos que a ligam separadamente a cada um dos progenitores e a confrontam com o elo existente entre os pais, que a exclui.(...) Se o vínculo entre os pais, percebido como amoroso ou odioso, puder ser tolerado na mente da criança, isto lhe fornecerá um protótipo para uma relação de objeto de um terceiro tipo, na qual ela é uma testemunha e não um participante. Uma 'terceira posição' passa, então, a existir, a partir da qual relações de objeto podem ser observadas (Britton, 2003: p.70).

Britton (2003) chamou de "espaço triangular" a liberdade mental provocada pela percepção da existência do pai, que permite à criança perceber o outro, perceber-se pelo olhar do outro, perceber a si mesma e consequentemente, possibilita a percepção de estarmos em vinculação com um outro e de percebermos que nossos pontos de vista são uma das muitas possibilidades de interpretação dos fatos da vida.

O autor percebeu através de sua experiência clínica com pacientes psicóticos que existe neles um medo de uma incompreensão maligna, expresso na relação transferencial com o analista. Essa incompreensão atingiria um modo tão fundamental, que resultaria na eliminação de toda a experiência que tinham de si próprios, aniquilando a capacidade do self de fazer sentido. Ele compara essa situação à definição de Caos primordial freudiana:

'Aproximamo-nos do ID com analogias: nós o chamamos de Caos, caldeirão cheio de excitações fervilhantes... As leis lógicas do pensamento não se aplicam ao ID e isso é principalmente verdadeiro quanto à lei da contradição' (Freud 1933a: 75). Freud escreveu sobre o medo do ID como fundamental (Britton, 2003: p.86).

Ele busca compreender essa situação com o conceito de "terror sem nome", simbolizado por -K, que Bion considerava ser uma oposição inata à continência pela compreensão materna, o equivalente à inveja kleiniana; e usa o exemplo das cosmologias antigas, nas quais o princípio da ordem era representado através de diferentes nomes.

... o nomear produz ordem e provê algo sobre o qual o mundo pode se assentar. O retorno à ausência de nomes parecia uma incursão do Caos no mundo ordenado, diferenciado, e assim parecemos encontrar na velha cosmologia, o conceito de Bion do terror sem nome, representado como um monstro Caos a personificação de -K. (...) se o trono de Deus for ocupado pelo monstro Caos, o espaço delimitado será substituído pelo vazio e o sentido pela falta de sentido. Em termos intrapsíquicos o ocupante da terceira posição, o superego, seria o monstro Caos. Este monstro, penso, assemelha-se ao que Bion chamou de o 'superego destruidor do ego' (Bion 1959:107). Em termos edipianos temos, então, o pai como um anarquista psíquico e a morte da mãe, personificando o sentido (p. 87).

O autor acrescenta que Klein em 1958, também se referiu a esses fenômenos do aparelho psíquico, mesmo após a elaboração da posição depressiva.

Presumo, contudo, que mesmo sob condições favoráveis, figuras aterradoras nas camadas profundas do inconsciente fazem-se sentir quando a pressão interna e externa é extrema. Pessoas que de modo geral são estáveis... podem superar esta intrusão do inconsciente mais profundo em seu ego e recuperar sua estabilidade. Em indivíduos neuróticos, e ainda mais em psicóticos, a luta contra esses perigos que ameaçam a partir das camadas mais profundas do inconsciente é, em alguma medida, constante e faz parte da instabilidade deles ou de sua doença (Klein, 1958: 243. In Britton: p.87).

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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