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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Ele sugere que o terapeuta esteja sempre refletindo sobre a posição que está ocupando na dinâmica de cada sessão grupal, assim como considera importante observar como os outros participantes do grupo lidam com questões relativas às lideranças e que papéis assumem em relação a isso. Essa postura permitiria perceber que suposto básico ou cultura grupal está imperando em cada momento, de modo a formular uma interpretação que possa esclarecer ao grupo o seu movimento emocional, permitindo sua transformação. A escolha das palavras usadas em cada interpretação é fundamental, de forma a não utilizar termos técnicos e procurar ser simples e direto.

Nos grupos em que sou psiquiatra, sou, em virtude de minha posição, a pessoa mais óbvia em quem investir o direito de estabelecer regras de procedimento. Tiro vantagem desta posição para não estabelecer nenhuma regra de procedimento e não adiantar qualquer agenda. A partir do momento em que se torna claro que estou fazendo isso, o grupo se põe a remediar minhas omissões e a intensidade com que assim procede mostra que se acha em jogo mais do que uma paixão pela eficiência. O fenômeno contra o qual o grupo se está resguardando não é mais que as manifestações de grupo que descrevi... (p.68).

Os supostos básicos que emergem da mentalidade grupal, a qual é de natureza onírico-mítica, são: Dependência, Luta e Fuga e Acasalamento.

Sob o predomínio do Suposto Básico de Dependência, o grupo se coloca em uma posição regressiva de ser cuidado por um outro, pedindo um líder que supra todas as suas necessidades. Nesse grupo, por exemplo, a relação médico e paciente é supervalorizada e o grupo provoca o médico para dar respostas concretas e demonstrar seus conhecimentos. Todos que se destacam ou tentam ser ouvidos podem ser percebidos como ocupando uma posição de rivalidade com o terapeuta. Os participantes só dirigem a palavra ao líder do grupo, a quem atribuem uma onisciência e onipotência.

Nesse grupo há o predomínio de uma sensação de insatisfação sempre que seus membros não se sentem plenamente atendidos em suas necessidades. O grupo caracteriza-se pela imaturidade e ineficiência nas relações pessoais.

O grupo, freqüentemente, estrutura-se como um grupo de dependência a fim de evitar experiências peculiares aos grupos de acasalamento e de luta-fuga. (...) deixando o analista experimentar, se quiser, o que significa dirigir-se aos problemas de que o grupo está fugindo (p.72).

Os membros de um grupo que funcionem sobre uma cultura grupal de dependência consideram-se incapazes de aprender com a experiência e possuem uma vivência de inadaptação e frustração intensa. No entanto, tais sentimentos não são manifestos e são contraditórios com o afeto que se estabelece quando despejam sobre o terapeuta suas queixas e ficam sentados aguardando que este os resolva magicamente, salvando-os. O grupo ouve e interpreta qualquer fala do terapeuta como resposta ao seu desejo de dependência.

Sob o predomínio do Suposto Básico de Luta e Fuga, existe uma enfatização de sentimentos persecutórios, característicos da posição esquizoparanóide. Aparece uma sensação de perigo eminente, em relação à qual as únicas saídas possíveis são lutar ou fugir.

Bion (1961) exemplifica que no grupo de Luta e Fuga, no caso de pacientes psiquiátricos, por exemplo, eles consideram que só existe uma forma de lidar com o doente mental ou com a própria doença: combatendo-os ou fugindo deles, como em uma guerra.

Sob o predomínio do Suposto Básico de Acasalamento, ocorre uma formação de pares e um movimento de buscas de alianças, de forma a encontrar algo ou alguém que salve o grupo de seu sofrimento, dentro de uma idéia de esperança messiânica. Nesse suposto básico, o grupo encontra-se menos regredido e assume um funcionamento mais característico da posição depressiva.

A função do terapeuta seria propiciar, através de suas intervenções e interpretações, que o grupo passe a ver-se sob diferentes perspectivas, o que permitiria que ocorram transformações na dinâmica do grupo, que pode mudar de suposto básico, quebrando estereotipias e "dogmas".

Se o desejo de segurança fosse tudo o que influencia o indivíduo, então o grupo de dependência poderia bastar, mas o indivíduo necessita de mais do que segurança para si e, dessa maneira, tem necessidade de outras espécies de grupo. Se o indivíduo estivesse preparado para suportar as dores do desenvolvimento e tudo o que isto implica em esforços para aprender, poderia ultrapassar o grupo de dependência. Mas o fato de desejá-lo, mesmo com os impulsos que não são satisfeitos no grupo de dependência, por um estado no qual, sem passar pelas dores de crescimento, possa encontrar-se integralmente preparado para a vida de grupo, resulta num impulso na direção de um grupo estruturado para o acasalamento ou para a luta-fuga (p.82).

A capacidade criativa do Grupo de Trabalho dependerá diretamente do grau de colaboração entre seus membros e da flexibilidade de passar de um suposto ao outro, o que influenciará na auto-estima dos mesmos e no prazer relativo ao sentimento de pertença dos seus participantes. Apesar disso, o crescimento e o processo de diferenciação sempre virão acompanhados por um certo grau de solidão e de uma sensação de isolamento.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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