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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Portanto, os mecanismos de defesa que caracterizam a fase esquizoparanóide não têm simplesmente essa função específica, mas além de protegerem o ego, são também etapas graduais do desenvolvimento mental.

Com o passar do tempo, através das pequenas ausências da mãe, que provocam reações que vão desde o sentimento de desamparo até níveis variáveis de desespero, o bebê começa a perceber que, se a mãe não está sempre com ele, então ela e ele não são uma coisa só e isso traz uma mudança para a estruturação do psiquismo, pois o bebê começa a perceber a mãe como objeto externo a ele. Simultaneamente a esse processo ocorre a percepção do pai, como um terceiro elemento da relação, até então dual. A partir daí, o bebê tenta controlar o objeto mãe para não perdê-lo. A mãe, representada simbolicamente na linguagem kleiniana por uma parte de seu corpo, o seio, ao se afastar, o frustra e, portanto, passa a ser considerada o objeto perseguidor. No pólo oposto, o mesmo processo ocorre com a mãe que cuida, que dá amor, que vai sendo representada como o objeto bom (seio bom). Em decorrência disso, as relações parciais vão sendo gradualmente substituídas por relações de objeto total, pois o bebê passa a perceber que a mãe que frustra é a mesma que cuida. Nessa etapa, o bebê passa a tentar lidar com outro tipo de angústia, baseada no receio de que seus objetos maus (seus ataques sádicos e invejosos) possam estragar o objeto bom. Perceber o objeto total é perceber a mãe como uma pessoa que se relaciona com outras pessoas além dele, o que implica a percepção de um outro além de si próprio, uma vez que a mãe, tendo vontade própria, pode se afastar dele, não estando sobre seu controle.

Nessa fase, desenvolve-se o mecanismo de reparação; o bebê passa a tentar consertar seus erros, de forma a evitar que seus impulsos agressivos resultem na perda do objeto bom. O bebê começa a sentir ambivalência, ama e odeia o mesmo objeto e passa a tentar elaborar esse conflito entre a inveja do objeto bom e a culpa por tentar atacá-lo. Isso só pode ocorrer quando o bebê já percebe dentro de si objetos bons, fortes o suficiente para não se ameaçarem tanto com a percepção de seus próprios impulsos destrutivos. Tais movimentos são resultado de um aumento da capacidade de tolerância à frustração.

As posições kleinianas funcionam como uma espécie de grupos internos, configurações mentais ou "estados de mente", formados por relações de objeto, mecanismos de defesa e certas ansiedades (Fernandez, W.J.2003).

O conceito de defesa maníaca foi desenvolvido por Klein (1946) como uma forma da criança lidar com as ansiedades depressivas, fazendo uso de reparações maníacas, que funcionam inicialmente como pseudo-reparações.

Winnicott (1935) utilizou esses conceitos kleinianos para definir defesas maníacas. Para ele, o uso dessas defesas é representativo de uma dificuldade do indivíduo de estar em contato com o significado pleno de seu mundo interno e com as ansiedades características da posição depressiva.

Gostaria agora de examinar mais detidamente a natureza da defesa maníaca. Suas características são a manipulação onipotente ou controle, e a desvalorização desdenhosa. Ela se organiza em relação às ansiedades vinculadas à depressão, que é o estado de espírito resultante da coexistência de amor, voracidade e ódio nos relacionamentos entre os objetos internos (In Winnicott, 2000: p.203).

Winnicott (1935) cita algumas estratégias utilizadas nesse tipo de defesa: negação da realidade interna, acompanhada de uma fuga para a realidade externa; substituição (negação) dos sentimentos de tristeza e sensações de peso, por sensações opostas de leveza e bom humor.

6) CONTRIBUIÇÕES DE BION PARA A PCV

As idéias de Bion (1961) serão apresentadas principalmente através de textos de autores contemporâneos como Zimerman, Fernandez, W.J. e Rezende (dentre outros) que me auxiliaram na sua compreensão; funcionaram, para mim, como um filtro, pois emprestam suas respectivas funções alfa, seus conhecimentos e suas experiências em psicanálise para os profissionais mais inexperientes. Optei por essa alternativa, mesmo sabendo que suas contribuições vêm permeadas de suas visões pessoais sobre a obra de Bion, porque esta me parece extremamente complexa e densa, repleta de novos conceitos. Preferi, então, correr este risco. Através do continente possibilitado pelos trabalhos dos autores contemporâneos, o conteúdo deste capítulo pôde ser elaborado.

Bion (1975) identifica que há dois aspectos terapêuticos nos grupos: "a catarse da confissão pública" e a possibilidade de se adquirirem conhecimentos sobre o funcionamento mental.

Segundo o autor, os grupos se movimentam em dois planos: o Grupo de Trabalho, no qual predominam fenômenos conscientes, relacionados à execução da tarefa e o Grupo de Supostos Básicos, que se caracteriza por fenômenos inconscientes, baseados em estados afetivos arcaicos, pré-genitais e que são encontrados mais claramente na psicose (atavismo das pulsões e das fantasias inconscientes).

Antes de definir cada suposto básico, torna-se importante esclarecer dois conceitos desenvolvidos por ele, o de mentalidade grupal e o de cultura grupal.

Sugeri que ajuda a elucidar as tensões do grupo supor a existência de uma mentalidade de grupo. Utilizo este termo para descrever o que acredito ser a expressão unânime da vontade do grupo, uma expressão de vontade para qual os indivíduos contribuem anonimamente. Disse pensar que este fenômeno da vida mental do grupo causava dificuldades para o indivíduo na perseguição de seus objetivos. Meu terceiro e último postulado foi o de uma cultura de grupo, expressão que empreguei para descrever aqueles aspectos do comportamento do grupo que pareciam nascer do conflito entre a mentalidade de grupo e os desejos do indivíduo (Bion, 1975: p.51).

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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