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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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1) PSICANÁLISE DAS CONFIGURAÇÕES VINCULARES (PCV)

Neste momento pretendo abordar algumas formas de concepção e de intervenção grupal, dentre as muitas existentes, assim como trazer algumas das noções psicodinâmicas necessárias para a compreensão do trabalho grupal, nas quais figuram, dentre outros, autores como Foulkes (1967), Klein (1958), Kaës (1997), Pichón Rivière (1980) e Bion (1975, 1991 e 1994). Estes dois últimos autores investiram especial dedicação ao estudo da psicanálise dos vínculos. Pichon-Rivière (1980) foi o autor que mais se utilizou, em sua obra, do conceito de vínculo, unindo sua experiência como psicanalista de orientação kleiniana com conceitos provenientes da sociologia. Bion (1965), no conjunto de sua obra, que se caracterizou por uma "Psicanálise do Pensamento" (Rezende, 1995 e 2000), desenvolveu contribuições de grande valor ao campo vincular, que foram ampliadas pelos estudos do psicanalista brasileiro David Zimerman (1999).

A psicanálise das configurações vinculares (PCV) foi criada em 1988, na Argentina, e abrange a compreensão dos fenômenos que ocorrem nos grupos, famílias, casais e instituições. Busca estudar a natureza dos vínculos do trabalho analítico, assim como as fantasias, ansiedades e defesas, que estão sempre presentes em qualquer relacionamento bipessoal ou grupal. As pessoas relacionam-se a partir de modelos de vínculos, as matrizes vinculares, originárias da matriz edípica.

A PCV passa a considerar que os casais, as famílias, os grupos e as instituições constituem configurações semelhantes às das manifestações interindividuais.

Pichon-Rivière (1980) ampliou o conceito de relação de objeto kleiniano:

A indagação analítica desse mundo interno levou-me a ampliar o conceito de 'relação de objeto', formulando a noção de vínculo, ... uma estrutura complexa que inclui um sujeito, um objeto e sua 'mútua inter-relação com processos de comunicação e aprendizagem' (Pichon-Rivière, 1980: p.66).

Fernandes, W.J. (2003) define que o conceito pichoneano de vínculo relaciona-se com o de comunicação e o de conduta, assim como com o de assunção de papéis. Para ele, inconsciente é um reservatório no qual são registradas condutas relativas aos vínculos e aos papéis sociais.

Para Bion (1965) e Zimerman (1999), vínculos são elos de ligação intrapessoal (objetos internalizados), interpessoais (diversas formas pelas quais o indivíduo se relaciona com seus semelhantes) e transpessoais (como indivíduos e grupos se relacionam com normas, leis e valores sociais, assim como os papéis e funções que desempenham no contexto social, político e cultural. Abrangem fantasias inconscientes, mitos, lendas, contos de fadas, etc).

Ao mesmo tempo em que o intrapsíquico é determinante para o vínculo, este tem para o indivíduo uma função continente (Bion) ou de ancoragem (Kaës).

Segundo Fernandes, W.J e Svartman (2003), o vínculo implica a existência de um emissor que emite uma mensagem a um receptor, que procura decodificá-la. Por envolver um processo comunicacional, o vínculo inclui a presença de um objeto real externo (material), assim como o compromisso deste em uma relação dialética com o sujeito, que retroalimentando-se mutuamente, possibilitando uma internalização dessa estrutura relacional, passa, por sua vez, a caracterizar-se como um vínculo "bom" ou "mau".

Pichon-Rivière (1980) explica a vivência da alienação como um processo no qual ocorre um fortalecimento do vínculo com o objeto interno, que toma proporções de força e poder, em detrimento da vivência de contato com o mundo exterior.

Ele considerava o vínculo uma estrutura dinâmica, social e, portanto, manejável operacionalmente, que está relacionado com a noção de papel, de status e de comunicação. No que diz respeito às instâncias do aparelho psíquico, se no vínculo houver a predominância de elementos característicos do ID, a relação será mais amorosa ou mais agressiva; no caso de predominar aspectos egóicos, a relação poderá ser mais operacional, ou adquirirá uma característica de manipulação da realidade; e, finalmente, caso ocorra a predominância de aspectos superegóicos, será um vínculo baseado em vivências de culpa. Isso não significa que não envolva o trabalho de todo o aparelho psíquico, que funciona como uma totalidade, cujas partes, em um determinado momento e em cada sujeito apresentam algumas características específicas.

Outro aspecto teórico importante da PCV é que ela está de acordo com o pressuposto básico de Freud de que processos inconscientes determinam as manifestações clínicas individuais, grupais ou de massa (Fernandes, W.J e Svartman, 2003: p.68).

O indivíduo externaliza os processos internos por projeção e os capta novamente através da introjeção; isso faz com que esses acabem por proporcionar certo nível de distorção da realidade intrapsíquica, o que se dá através de um processo circular.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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