Cândido Escola
Teses
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental | A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental |
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| Por Ana Carla Silvares Pompêo | |
| 31 de maio de 2004 | |
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Da mesma forma, a identidade pessoal é formada por uma constelação de fantasias que correspondem a um precipitado de antigas relações de objeto, constituídas por representações do vínculo, isto é, como esses objetos relacionam-se entre si, organizados em fantasias. Segundo Bernard (1991), o grupo interno ou matriz interna grupal - denominação dada por Cortesão - é responsável pela sustentação da identidade de cada indivíduo, uma vez que, no momento no qual emergem as fantasias, o indivíduo é o grupo e o grupo é o suporte da identidade de seus membros (In Fernandes, W.J., 2003). No grupo a "discussão livre flutuante" substitui a associação livre, de tal forma que ocorre uma reação em cadeia, na qual seus participantes buscam compreender-se mutuamente, colaborando para que um traduza a fala de outro, sonhando sonhos comuns ("Grupo como um sonho": conceito de Anzieu, 1993). Os diferentes canais de comunicação vão formando uma rede de interações que tende a adquirir uma maior estabilidade durante o desenvolvimento do grupo. Pulsões, afetos e emoções vividos originalmente em relação a figuras relevantes do início da vida, são reeditados no "aqui e agora" grupal. Uma parte do grupo ou algum participante pode assumir a função de uma das instâncias da mente (id, ego ou superego) e a outra parte relacionar-se com aquela como se fosse parte de si. Os conflitos intrapsíquicos são reeditados transferencialmente e passam a ser dramatizados no grupo, como se ocorressem entre os seus participantes. Utilizarei, neste trabalho, o conceito de contratransferência de Bion (1957) e de Rosenfeld, H. (1991), os quais a definem as reações provocadas no analista a partir do processo de interação inconsciente com seus pacientes, que deve utilizá-las como instrumento terapêutico para a formulação de interpretações. Nesse processo, o paciente comunica ao analista, por meio de identificações projetivas, suas vivências primitivas, dentro do conceito de "Continente e Conteúdo" (desenvolvido por Bion, que será explicado mais adiante). Torna-se necessário, no entanto, fazer uma diferenciação entre contratransferência normal e contratransferência patológica (Money-Kyrle, 1956), que aparece quando o analista intervém na sessão a partir de imagens, sensações, sentimentos e impulsos despertados nele, pelo paciente, sem fazer uma elaboração desse fato e discriminar que essa interação despertou suas neuroses pessoais. Segundo Money-Kyrle (1956): Á medida que o analista pode compreendê-las, esta relação satisfatória - que chamei de 'normal' persiste. Em particular, os sentimentos contratransferenciais do analista estarão limitados à empatia com o paciente, sobre a qual está baseado o insight ... Em particular, sua compreensão falha toda vez que o paciente corresponde de forma demasiado próxima a algum aspecto de si próprio que ele ainda não aprendeu a compreender. Além disso, alguns pacientes são muito menos cooperativos do que outros. Há pacientes com quem o melhor dos analistas encontra grande dificuldade em manter contato - com quem a relação normal é a exceção e não a regra. E mesmo com pacientes cooperativos a relação está sujeita a rupturas razoavelmente freqüentes (In R. Barros, 1990: p.37 e 38). O analista passa a ter, a partir de suas descobertas, uma função tanto de intérprete de fatos inconscientes, como de objeto desses mesmos fatos. A observação e reflexão sobre a contratransferência auxilia muito na compreensão do conteúdo latente das falas dos pacientes. O analista tem que estar, no entanto, sempre atento para não atuar impulsivamente em função dela. Nos grupos as transferências podem ser horizontais ou verticais, manifestando-se em quatro níveis diferentes simultaneamente: de cada paciente para o terapeuta, do grupo como um todo para o terapeuta, de cada paciente para outro paciente e de cada paciente para o grupo como um todo. As transferências horizontais se manifestam no "aqui e agora" do grupo, de modo que ocorra uma identificação recíproca entre seus participantes, dentro de um estado de indiferenciação, o qual pode ser identificado quando o outro é tratado como extensão de si mesmo e o grupo é vivido como extensão da própria subjetividade (Bernard, 1996; In Fernandes, W.J., 2003). A transferência vertical inclui o enfoque histórico-genético, ao relacionar-se à experiência singular de cada participante, antes de sua inclusão no grupo. Puget e Berenstein (1997) enfatizam a necessidade da investigação da área mental do analista que promove respostas contratransferenciais em seus atendimentos de grupos, famílias ou instituições. Defendem a idéia de que nos grupos, cenas e enredos inconscientes são dramatizados através da distribuição e atribuição de papéis na transferência grupal. O grupo estimula a regressão e indiscriminação dos limites do próprio self , o que se dá através de mecanismos de projeção e deslocamento, dentro de um campo tridimensional (dimensões espacial, temporal e social). Anzieu (1993) desenvolveu o conceito de "Ilusão grupal", que resulta da fantasia de fusão com o objeto. O autor afirma que: Do ponto de vista dinâmico, a situação de grupo acarreta uma ameaça de perda da identidade do Eu. A presença de uma pluralidade de desconhecidos materializa os riscos de fragmentação. A ilusão grupal responde a um desejo de segurança, de preservação da unidade egóica ameaçada; para tanto, ela substitui a identidade do indivíduo por uma identidade de grupo: à ameaça visando o narcisismo individual, ela responde instaurando um narcisismo grupal... (Anzieu, 1993: p.82). O autor assume que a "Ilusão grupal" representa uma defesa comum contra uma angústia persecutória do grupo. Em função desta última, os participantes elaboram defesas individuais, como, por exemplo: silêncio prolongado, formação de subgrupos, assunção de papéis de liderança, o que se caracteriza pelo uso de defesas hipomaníacas. Ao projetar a pulsão de morte em um bode expiatório, em um outro grupo ou no mundo externo, torna-se possível a vivência coletiva de um vínculo de amor. 66,67,68,69
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| Última Atualização ( 23 de junho de 2008 ) |
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