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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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III - Grupo e Inconsciente

Svartman (2003) define grupo como um instrumento de acesso ao inconsciente, um lugar no qual se desenvolve uma realidade psíquica própria e, simultaneamente, a formação de uma parcela da realidade psíquica de seus integrantes. Trata-se de um espaço de transformações contínuas, que acompanham o ritmo da existência humana e de interação mútua, transformando o sujeito e o seu meio. Os grupos são um convite para que o indivíduo possa conhecer-se através do olhar de um outro ou de vários outros.

Freud (1921) salientou que a história individual de cada um encontra-se sempre ligada à história dos grupos aos quais pertence. Desenvolveu a concepção de um inconsciente dinâmico, no qual são recalcados conteúdos compostos por fantasias e por energia. Descobriu que o inconsciente poderia ser acessado através dos sonhos, dos atos falhos, das associações livres e da transferência.

Freud (1923) conceituou a divisão do psíquico entre consciente e inconsciente. O inconsciente é formado por instintos primitivos que procuram descarregar sua catexia, ou impulsos carregados de desejo (ID). Através do mecanismo de deslocamento, uma idéia pode ceder à outra toda a sua quota de catexia ou, pelo mecanismo de condensação, pode apropriar-se da catexia de várias outras idéias. Esses são mecanismos característicos do Processo Primário do aparelho psíquico (Princípio do Prazer), no qual imperam os processos inconscientes e que se caracteriza pela tendência do aparelho psíquico de tentar evitar qualquer situação de desprazer, buscando uma satisfação imediata, sem levar em conta a realidade exterior.

... O melhor exemplo disto é a formulação de Freud sobre a 'satisfação alucinatória dos desejos', pela qual o bebê substitui o seio faltante pela sucção do seu próprio polegar. Outros exemplos equivalentes, nos estados adultos podem ser os que constituem os devaneios, fantasias inconscientes, crenças ilusórias, produções delirantes, impulsividade, etc. (Zimerman, 1999: p.78)

O Princípio de Prazer se contrapõe ao Princípio de Realidade, no qual a libido está conectada a uma representação psíquica pré-consciente ou consciente. Neste processo imperam as funções egóicas.

Para Klein (1952), o ego é uma estrutura inata e com energia própria, presente de forma rudimentar no bebê recém-nascido. O ego exerce as funções de mediador e harmonizador, entre as pulsões do ID, as exigências superegóicas e a realidade exterior.

Zimerman (1999), ao descrever o funcionamento do ego, ressalta sua missão de fazer a adaptação da realidade psíquica à realidade externa, o que se dá através de funções como percepção, pensamento, memória, atenção, antecipação, discriminação, juízo crítico e ação motora. É a sede de funções complexas predominantemente inconscientes como: produção de angústias, mecanismos de defesa, identificações e formações de símbolos, e das representações de si mesmo, estruturando seu sentimento de identidade e auto-estima.

O superego é a instância normatizante, responsável pela construção de regras que regem o comportamento do indivíduo e é formado pelas introjeções e identificações que a criança faz a partir de sua vinculação com os pais reais ou imaginários (Zimerman, 1999).

Considero importante apresentar os conceitos freudianos de ego ideal e ideal de ego. O ego ideal, segundo Zimerman (1999) é herdeiro do narcisismo primário, no qual a criança considera que ela e a mãe são uma coisa só e que a mãe existe em função dela. Essa instância psíquica carrega as exigências do sujeito em relação a ele mesmo, mas exigências ideais, portanto inalcançáveis. Ele costuma estar sempre distante do ego real e, nessa instância a ilusão deve ser mantida a qualquer preço, negando a realidade externa. O ideal do ego se origina a partir do ego ideal, que é projetado nas figuras paternas e está voltado para cobranças futuras, a serem realizadas. É fundamental no desenvolvimento do psiquismo, pois orienta o sujeito para seus projetos futuros, mas, quando há uma predominância de seu funcionamento, pode resultar no desenvolvimento de um falso self , de forma que a pessoa se volta para as expectativas dos outros.

O falso self foi um conceito desenvolvido por Winnicott (1986) e representa um processo de construção de identidade no qual o indivíduo tenta se adaptar às expectativas que sua família e sociedade têm dele, de forma a sentir-se aceito.

Esse funcionamento psíquico envolve projeções, que são um tipo de mecanismo de defesa essencial para o desenvolvimento. Neste mecanismo o instinto de morte é colocado para fora do indivíduo e isso ajuda o ego a se livrar de suas ansiedades e das ameaças que identifica.

Por volta de 1940, Bion, a partir de suas experiências com grupos durante a segunda grande guerra, desenvolveu o conceito de mentalidade grupal, que corresponderia ao conceito freudiano de inconsciente individual. Para esse autor, estar em grupo envolveria uma atividade transformadora da realidade e uma tendência regressiva em direção ao Princípio do Prazer. A mentalidade grupal se expressa, no plano manifesto (o que se ouve e se vê) através de pensamentos individuais, mas, no plano latente (conteúdos inconscientes) passa a assumir um caráter uniforme, unânime, que leva o grupo a buscar a realização de objetivos comuns, que podem ser observados através de uma expressão dramatizada através da transferência, das fantasias inconscientes, no "aqui e agora" do grupo. Para ele, esse grupo estrutura-se a partir de uma crença de que, no campo grupal existe algo mais do que um conjunto de indivíduos.

Entende-se por transferência o processo através do qual ocorre a atualização de conteúdos inconscientes projetados sobre objetos da realidade psíquica. Trata-se de uma reedição do passado no presente. Na transferência, um afeto é deslocado de uma representação de objetos originais (mãe, pai, irmãos, etc) para outras, vivenciadas em momentos posteriores da vida e traz para o nível consciente: sentimentos, desejos, fantasias reprimidas e/ou relações de objeto (Klein, 1952).

No grupo, as comunicações verbais e não verbais são consideradas associações livres, dramatizações de fantasias inconscientes e suas redes de comunicação são analisadas a partir do conceito de Matriz grupal.

Matriz grupal foi o conceito desenvolvido por Foulkes (1967) e aprimorado por Cortesão (1989), o qual define uma rede de comunicações que se dá através de múltiplas transferências e que podem variar dependendo do momento do grupo. Para o primeiro, o grupo analítico é basicamente um grupo de transferência, ao passo que matriz grupal é uma rede de comunicação transpessoal, que age nos níveis consciente e inconsciente (In Fernandes, W.J., 2003).

No grupo, o inconsciente emerge menos pelo discurso manifesto e mais pela dramática e interações entre os participantes, nas quais o que determina a assunção de papéis diferenciados dentre seus membros são as fantasias inconscientes.

Grinberg, Langer e Rodrigué (1957), Pichon-Rivière (1994) e Anzieu (1993) colaboraram para o desenvolvimento do conceito de fantasia dramatizada. As fantasias inconscientes são produções mentais indispensáveis para a sobrevivência psíquica, uma vez que visam aplacar o sofrimento, sendo substrato para a realização de projetos de vida e produções artísticas. Ao virem à tona nos grupos terapêuticos, na forma de cenas e enredos, podem ser reconhecidas e traduzidas através de interpretações. Esse conteúdo (fantasias) acaba sendo dramatizado espontaneamente, através de projeções e identificações (In Fernandes, W.J., 2003).

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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