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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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O que é percebido exige crença para se tornar conhecimento. A descrença pode, portanto, ser usada como uma defesa, seja contra fantasias, seja contra percepções (Britton, 2003: p.25).

O autor enfatiza que há uma distinção importante entre crença e conhecimento. Conhecimento implica o reconhecimento de uma verdade e a crença implica que se acredita em algo, que não é necessariamente uma verdade. A partir do momento em que uma idéia se transforma em crença, esse processo mental passa a produzir conseqüências.

Em outras palavras inclinamo-nos de início a tratar o crer como conhecer e crenças como fatos. Somos prisioneiros de nossas crenças à medida que as encaramos como conhecimento, ainda mais quando elas são inconscientes; o dar-se conta de que são apenas crenças é um ato de emancipação. (...) Os desenvolvimentos cognitivos, científicos e culturais não são simplesmente a aquisição de novas idéias, mas um ato de emancipação de crenças preexistentes. (...) Sugiro que o reconhecimento que uma pessoa tem de ter uma 'crença', em vez de achar que está de posse de um 'fato' requer aquilo que eu descrevo como 'espaço psíquico triangular'- torna-se necessária uma terceira posição no espaço mental, a partir da qual o self subjetivo pode ser observado como tendo uma relação com uma idéia. (...) No modelo que estou propondo, a crença subjetiva vem antes da avaliação objetiva ou do teste de realidade (p.29 e 30).

Renunciar às crenças conscientes e inconscientes, uma vez que estas são formas de realização de desejo, exige uma elaboração do triângulo edípico e um luto. Relaciona-se à capacidade de renúncia aos objetos perdidos, que implica uma distinção entre realidade interna e externa, em perceber e tolerar esta diferença. Quem não pode distinguir crença de conhecimento não consegue desistir de uma crença, o que é comum nos estados psicóticos. Quando crenças são tomadas como conhecimento, surge um estado de onisciência, sendo as crenças dele resultantes, os delírios.

Para concluir, considero importante acrescentar que a experiência estrangeira de reforma psiquiátrica, a partir de décadas de experiência de tratamento em equipamentos substitutivos ao manicômio, constatou que a cronificação dos pacientes não era responsabilidade exclusiva das práticas manicomiais e sim, do próprio desenvolvimento das patologias mentais.

A prática na comunidade, já desvinculada do peso dos muros e dos tratamentos desumanizados, trouxe novos questionamentos aos profissionais, que se deparam atualmente com amplos grupos de pacientes - com ou sem histórico de internações em hospitais psiquiátricos - que dependem dos serviços de saúde mental. Essa prática tem mostrado o surgimento de novos tipos de psicoses e neuroses graves, que se instalam na forma de pequenos transtornos limitadores da capacidade de viver, constituindo os chamados novos crônicos. Autores como Espinosa, Liria e Desviat (et al., 1986) e Desviat (1999) têm apresentado estudos sobre essa questão, que aponta para uma dimensão cronificadora que a doença mental traz em si mesma, variando de uma patologia à outra, o que constitui um novo desafio para a clínica psiquiátrica, a qual necessita desenvolver novas modalidades terapêuticas, específicas para cada demanda de tratamento, de forma a buscar minimizar os efeitos dessa cronificação.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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