Cândido Escola
Teses
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental | A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental |
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| Por Ana Carla Silvares Pompêo | |
| 31 de maio de 2004 | |
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A crítica acima não significa a defesa da extinção de benefícios, que são a única alternativa de intervenção possível no momento, mas um alerta para que se busquem critérios, parcerias e, conseqüentemente, soluções. Os benefícios são uma saída paliativa para os problemas sociais, os quais demandam transformações radicais que envolvem programas de redistribuição de renda, combate às desigualdades sociais, políticas de crescimento econômico, maior oferta de vagas no mercado de trabalho, investimento em educação, cultura e saúde, de forma geral. Mas, enquanto transformações significativas não ocorrem, torna-se necessário discutir esses temas e criar programas mais integrados entre as diversas áreas envolvidas no ato de reabilitar, visto que, embora este vise a reinserção social, estamos criando mais dependência dos serviços -- outro paradoxo. As oficinas de trabalho, por exemplo, estão crescendo e melhorando a qualidade de seus produtos, mas continuam a se caracterizar como um espaço protegido e poucos são os trabalhadores que, por meio delas, conseguem se reinserir no mercado de trabalho comum. Isso aponta para a necessidade de aumentar de parcerias com grandes empresas e pensar formas de, aos poucos permitir que seus trabalhadores saiam da instituição psiquiátrica, por exemplo, oferecendo cursos de capacitação para seus trabalhadores. O mesmo ocorre com os eventos festivos que envolvem pacientes psiquiátricos, como é o exemplo do carnaval. Os pacientes da Instituição Matriz comemoram o carnaval em uma data diferente do restante da população da cidade, pois, durante o feriado, a maioria dos profissionais está de folga. Esse é um direito trabalhista, mas o fato de os pacientes só comemorarem o carnaval na presença e companhia dos profissionais e de alguns pacientes com os quais têm vínculo demonstra o quanto eles dependem das equipes de saúde para ter acesso ao lazer. O simples fato de mudar a época do carnaval é indicador de diferença e de segregação, passível de reflexão. Por que não fazer um acordo com uma das escolas de samba da cidade, investir na compra ou confecção de fantasias e sair no carnaval de rua da cidade ou organizar a participação em algum outro evento popular? Enfim há muito o que planejar, discutir e muito que investir nos projetos de reinserção e integração social. A insistência no fechamento de leitos para pacientes com quadros agudos, antes de avaliar se os leitos-noite serão suficientes para atender à demanda de internação do município, é outro ponto de entrave. A experiência do CAPS tem mostrado que o dispositivo internação ainda é importante e terapêutico para alguns casos, os quais demandam um espaço de tratamento mais protegido. A experiência da reforma italiana e as transformações no modelo de saúde mental da cidade de Santos (SP), demonstraram que o fechamento precoce de leitos durante a implantação de seus projetos de reforma foi um erro crucial e fatal. O município não está investindo no aumento de leitos psiquiátricos em hospitais gerais (pelo contrário, estes leitos estão diminuindo progressivamente), o que demonstra que existe um risco importante dos CAPS ficarem sem uma retaguarda adequada para internação, o que acarreta uma queda na qualidade de atendimento e riscos para pacientes e equipes. Assim como, os CAPS, enquanto equipamentos substitutivos - que têm que atender crise, reabilitar, reinserir na sociedade, acompanhar moradias, serem espaços de convivência, têm que fornecer benefícios e trabalho - podem incorrer em um risco de serem equipamentos idealizados em teoria - com características oniscientes e onipotentes - o que na prática os torna fadados ao fracasso: uma missão impossível! Outro entrave à construção de novos paradigmas está diretamente vinculado aos anteriores, e relaciona-se ao aumento constante do número de pacientes nos serviços de saúde, sem que estes aumento seja acompanhado de investimentos em recursos humanos e materiais, o que afeta diretamente a qualidade da assistência prestada. Outro ponto fundamental, um outro eixo de discussão deste trabalho, envolve a questão das ideologias, crenças e valores que permeiam as políticas públicas, as diretrizes de tratamento e os referenciais teóricos dos profissionais. Parto do princípio de que correntes teóricas como a reabilitação psicossocial, a psicanálise, a psiquiatria clássica (dentre outros incontáveis exemplos) têm em sua raiz fortes influências de crenças e ideologias, que as definem - assim como a seus seguidores -- influenciando sua forma de estar, perceber, pensar e agir no mundo. Segundo Britton (2003), o exame de crenças pessoais é uma condição para o exercício de atividades terapêuticas. Segundo o autor, apesar de nossas crenças se apoiarem em um conceito de probabilidade (e não de certeza), produzem um estado emocional caracterizado por uma certeza. Ele define a neurose como o resultado das crenças inconscientes de cada indivíduo. As crenças se originam das fantasias infantis e persistem de forma inconsciente durante o passar dos anos. Essas fantasias inconscientes passam a influenciar emoções e comportamentos e, a partir do momento em que é feita uma vinculação à uma determinada fantasia e/ou idéia, esta passa a ter a dimensão de fato. Somente quando reconhecemos no nível consciente uma crença, torna-se possível, através da percepção e da memória, testá-la, contrastando-a com outros elementos da realidade e com outras crenças. O teste de realidade pode mostrar que determinada crença não se justifica mais e que se torna necessário renunciar a ela, o que se assemelha a um processo de elaboração de um luto. Mesmo que uma crença possa ser reprimida, os seus efeitos podem continuar a serem observados, pode surgir contra-crenças, de forma a ocupar o lugar da crença perdida (Britton, 2003). 66,67,68,69
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| Última Atualização ( 23 de junho de 2008 ) |
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