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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Não pretendo realizar neste trabalho uma defesa unilateral e/ou cooperativista do método e de uma ideologia psicanalítica para o trabalho do psicólogo clínico nas instituições, em detrimento da ideologia da reabilitação ou de qualquer outra abordagem. No entanto, apresento uma posição pessoal, construída ao longo de minha experiência profissional - em conjunto com os demais membros da equipe da qual faço parte - no desenvolvimento de uma clínica do CAPS, que busque a conciliação de novas idéias com aspectos do princípio da realidade freudiano, que torna indispensável o estabelecimento de limites adequados. Uma práxis que não inclua uma constante avaliação de potencialidades e dos limites inerentes ao ato de saúde, transforma esse último em atuação, com características de funcionamento delirante, pois isso ocorre sempre que se desconsidera a realidade externa. Creio que esse aspecto independe do referencial teórico de cada um, embora adote um referencial psicanalítico e tenha consciência de que este influencia diretamente minha experiência prática e forma de compreensão do mundo. Penso ser fundamental que todos tenham muita clareza de quais são os fundamentos epistemológicos, as crenças pessoais e grupais, assim como os valores que norteiam a própria vida, pois esse é um primeiro passo para a tomada de consciência da influência que exercem, maior do que poderíamos supor, tanto na escuta, na capacidade de observação e comunicação, quanto na elaboração de diretrizes e nas ações de planejamento institucional. Diferenciar o próprio self de um outro self, não poderia ser uma noção puramente teórica, mas implica um investimento complexo de dar real espaço para as manifestações desse outro, podendo acolhê-las de forma a incorporar a singularidade do mesmo, sem perder a própria.

Acredito que a psicanálise tem muito a contribuir para a reabilitação psicossocial e que a recíproca seja verdadeira, quando se trata de um contexto institucional, assim como no tratamento de pacientes com transtornos mentais graves.

Existe muito a ser pesquisado e publicado a esse respeito dessa nova clínica psiquiátrica, que depende simultaneamente tanto do desenvolvimento de recursos técnicos e teóricos no campo das psicoterapias e intervenções pedagógicas, quanto do investimento em pesquisas que possam ampliar o campo de conhecimento da realidade dessa clínica e da verdadeira demanda de seu público alvo, visando uma maior discriminação entre crenças e conhecimento. Essa clínica depende de várias frentes de pesquisa: desenvolvimento e acesso a novos psicofármacos; ampliação de recursos comunitários, melhora da qualidade de atendimento e condições de trabalho nos equipamentos substitutivos, assim como da criação com responsabilidade de novos serviços e ampliação do número de vagas nos mesmos; assim como da capacitação das equipes, dentre outras coisas. Todos esses elementos são fundamentais e norteadores do ato de saúde e constituem um tema bastante amplo, que poderá ser um futuro objeto de pesquisa.

Neste capítulo não irei me alongar em uma descrição dos principais conceitos que regem uma intervenção psicanalítica dentro do contexto institucional, pois o farei durante o próximo capítulo.

7) ENTRAVES NA CONSTRUÇÃO DE NOVOS PARADIGMAS

A construção de uma nova clínica da saúde mental coloca como desafio a invenção de novos paradigmas e formas de intervenção. Para que isso ocorra, se faz necessária uma transformação não somente externa, mas interna, das instituições de saúde e de seus profissionais. Mudar prédios, casas, fechar hospitais que não funcionem bem são ações políticas importantes, mas não garantem, por si só, uma mudança no processo de trabalho das equipes multi e interdisciplinares e na cultura dominante em uma determinada instituição, como dito nos subcapítulos anteriores. É, portanto, necessário um investimento constante nas equipes, assim como o desenvolvimento de dispositivos que permitam avaliar a qualidade da assistência prestada pelas instituições de saúde e seus respectivos processos de trabalho.

Atualmente, com o aumento das taxas de pobreza, uma população cada vez mais carente tem procurado tratamento, além de auxílio para suprir suas necessidades básicas de alimentação, transporte, moradia, trabalho, dinheiro, educação, cultura, lazer, dentre outras. A prática da reabilitação psicossocial incorporou todas essas variáveis ao tratamento, o que transformou os CAPS em serviços de alta complexidade. Existe pouca integração entre o trabalho desenvolvido nas secretaria de saúde, de promoção social e de habitação, ficando ao cargo da saúde cuidar de todas essas frentes de ação. A demanda crescente de que os CAPS se responsabilizem por auxiliar seus pacientes a melhorar suas condições de sobrevivência tem trazido algumas complicações de ordem prática para os profissionais engajados diretamente na assistência aos pacientes. Quando alguém entra num serviço de saúde que promete satisfazer a todas as suas necessidades básicas, pelo menos minimamente, ele se sente cuidado e com seus direitos garantidos, mas isso o torna extremamente dependente desse serviço. Os profissionais passam a ter dificuldades em programar altas para tais pacientes, que passam a freqüentar os serviços por tempo indeterminado e passam a ter cada vez menos possibilidades de real reinserção social. Melhorar e voltar para o mercado de trabalho comum, competitivo e, muitas vezes, desumano, significa perder parte dos benefícios conseguidos através de seu tratamento na saúde mental. Os benefícios, como aposentadorias, passes de ônibus gratuitos, alimentação gratuita, moradia protegida gratuita, acabam funcionando como "ganhos secundários da doença" que, em vez de prover melhora, a reforçam e acabam transformando esses pacientes em "pacientes profissionais", o que consiste em um problema, pois ser "normal" ou estar com a doença estabilizada tem um preço. Não é algo simples administrar as diferenças entre os pacientes, estabelecer critérios para definir quem precisa ou não de benefícios e, de um certo ponto de vista, o excluído acaba se transformando em privilegiado.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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