Cândido Escola
Teses
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental | A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental |
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| Por Ana Carla Silvares Pompêo | |
| 31 de maio de 2004 | |
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Leite Netto (1997) compartilha da concepção de Farkas (1997) e acrescenta que o olhar do analista tem muito a contribuir nas intervenções e discussões institucionais. Enfatiza que a construção de um setting é imprescindível, mesmo no contexto institucional. Entende-se por setting (enquadre), a resultante de procedimentos que organizam, normatizam e favorecem o processo psicanalítico, ou o próprio tratamento institucional. Ele tem um papel bastante ativo durante o desenvolver do tratamento, por ser um cenário no qual emergirão velhas e novas experiências emocionais e no qual se desenvolverão todos os fenômenos relativos ao vínculo terapeuta-paciente (Zimerman, 1999). Para Winnicott (1951), setting também abrange a noção de espaço transicional, que caracteriza um espaço de ilusão para indivíduos com patologias de natureza narcisística. Tustin (1981) considera o setting como uma incubadora, uma espécie de útero psicológico, que tem a função de acolher, aquecer, proteger, como uma pele psíquica , que faça uma união das partes do self , no caso de pacientes graves, como os autistas. Os terapeutas são um elemento essencial do setting , devido à sua atitude psicanalítica interna, na qual fazem a função de maternagem, emprestando algumas funções egóicas (pensamento, crítica, conhecimento, síntese, tolerância a frustrações, dentre outras), para os pacientes que não as desenvolveram ainda, ou encontram-se regredidos. Partindo das definições acima, fica claro que a clínica psicanalítica em instituições não se trata de uma reprodução da clínica particular aplicada à uma população carente, mas de uma mudança de papel do psicanalista, desde que mantendo em sua prática, os princípios básicos da psicanálise. Pelbart (1989) desenvolveu um conceito de manicômio mental , que considero um outro eixo para este trabalho. Questiona o lema da luta antimanicomial, que consiste em uma sociedade sem manicômios. Embora explicitamente pareça ser um questionamento radical, considera que implicitamente é um paralisador da ação transformadora. Propõe uma reflexão sobre quais seriam as conseqüências de uma sociedade na qual os loucos não estivessem em tratamento nos hospitais psiquiátricos, nem fossem mais discriminados por familiares ou no ambiente de trabalho e fossem pessoas integradas e acolhidas com serenidade por todos. Conclui que isso poderia ser uma tentativa de normatização do louco, atribuindo-lhe um lugar, um reconhecimento, ou até privilégios, tornando-o inofensivo, esvaziando-o de sua capacidade de subverter as regras sociais. A loucura é uma dimensão essencial da cultura e isso nos sugere uma reflexão: Ao borrarmos essa fronteira simbólica e concreta entre a sociedade e seus loucos não estaremos, sob pretexto de acolher a diferença, simplesmente abolindo-a? Não estaremos com um carinhoso abraço de urso, conjurando o perigo que os loucos representam? Não estaremos através de uma tecnologia soft , baseada na brandura e na diluição, domesticando a fera que os habita e nos livrando da estranheza que eles transmitem? Para dizê-lo de modo ainda mais incisivo, será que a libertação do louco não corresponde, no fundo, a uma estratégia política de homogeneização do social? (Pelbart, 1989, p. 132 e 133). Considero que suas idéias nos incitam a refletir, agregando conceitos novos ao movimento de reforma, as quais devem ser consideradas com atenção. Dentro dessa concepção não basta acabar com os manicômios, com os hospitais psiquiátricos, mas torna-se necessário libertar o pensamento da racionalidade carcerária e incluir nele um lugar para a desrazão, para o diferente. Para isso, ele comenta, que é necessário atribuir um lugar no pensamento para o insuportável não sentido (que não seja o manicômio ou o inofensivo campo das fantasias inconscientes) e fazer do acaso um campo de invenção para a imprevisibilidade. Isso traria aos profissionais de saúde um desafio de desenvolver uma modalidade inédita entre o pensar, o viver e a desrazão. Esse é um conceito fundamental para este trabalho, pois nos leva a questionar também a condição dos profissionais de saúde que convivem com o paradoxo reabilitação e psicanálise, ou em outras palavras, o paradoxo da pedagogia versus a clínica, ou da prática versus a teoria. A defesa unilateral de qualquer um desses ideais e métodos também constitui um impeditivo simbólico à capacidade de pensamento e ao desenvolvimento da criatividade do profissional. Além disso, denuncia uma grande dificuldade de convivência entre as diferenças ideológicas, o que em se tratando de profissionais que têm como missão tratar os excluídos e conviver com as diferenças nos pacientes psicóticos, é um indicador de um sintoma que pode vir a impedir o bom andamento de sua tarefa principal: profissionais que não aceitam diferenças entre seus pares, que são pessoas rotuladas normais aos olhos da sociedade, teriam a capacidade real de fazer isso ao outro? Quando esses conflitos ideológicos podem ser explicitados e debatidos abrem-se caminhos para uma convivência apesar das diferenças e, no futuro, quem sabe, graças a elas. Com a introdução do projeto terapêutico individual (PTI), como uma das diretrizes do tratamento, o olhar dos profissionais acabou sendo direcionado para as necessidades singulares de cada paciente e conseqüentemente, foi levantada a necessidade de uma escuta também singularizada, que leva a uma inevitável conexão com os processos psicoterápicos individuais, mesmo quando essa escuta não se dá dentro de um setting tradicional de psicoterapia (sala, mesa, cadeiras, horários agendados...). É a escuta do psicoterapeuta ou, no caso de minha abordagem específica, a escuta do psicanalista, que permite que o sujeito vá aos poucos se revelando em suas subjetividade. 66,67,68,69
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| Última Atualização ( 23 de junho de 2008 ) |
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