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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Em seu trabalho como consultor utiliza-se de contribuições de diversas áreas:

Da psicanálise , a sua teoria dos afetos e a compreensão das motivações inconscientes das ações humanas. Da teoria dos vínculos e dos grupos operativos , a maneira de discernir os objetivos (tarefas) dos grupos e das instituições e o modo de abordá-los operativamente, a partir dos vínculos relacionais. Da teoria sistêmica , a possibilidade de perceber e discriminar o jogo interativo dos indivíduos no contexto grupal e, a partir dessa percepção, catalisar as mudanças possíveis no sistema, trabalhando com os elementos fornecidos pela teoria da comunicação humana no sentido de esclarecer os 'mal-entendidos' e desfazer os 'nós comunicacionais' que obstaculizam o fluxo operativo. E do psicodrama , a visualização dos papéis designados no cenário dos sistemas humanos e a utilização do role-playing como ferramenta operacional (p.58).

Utiliza-se da metáfora da espiral ascendente, por focar o elemento prospectivo do processo, para trabalhar os destinos institucionais, assim como do fundamento epistemiológico da teoria sistêmica, o conceito de paradigma circular , padrão retroalimentação (feedback), que veio corrigir as distorções do paradigma linear , padrão causa-efeito , que norteava as ciências em geral e as ciências humanas até meados do século XX.

A idéia central do pensamento sistêmico é que, por um lado, o todo é considerado maior do que as partes e, por outro lado, não pode ser confundido com elas; cada parte só pode ser entendida no contexto do todo. Uma mudança em qualquer uma das partes afeta todas as outras que, por sua vez, afetam a parte alterada pelo mecanismo de retroalimentação ou feedback (p.58).

Segundo o autor, o fenômeno central da atividade de qualquer agrupamento humano é a interação entre seus componentes. Na dinâmica dessa interação é que se deve intervir para a transformação do grupo, dentro da metáfora da espiral ascendente. Seu enfoque do atendimento privilegia o desenvolvimento de mecanismos interativos e estimular, a busca de desiderativos a partir de seus próprios potenciais, nunca desqualificando sua trajetória prévia, mas sempre propondo um olhar prospectivo.

Osório (2003) sugere que as lideranças devem estar atentas para o risco de monitorar os destinos institucionais a partir de uma necessidade pessoal e não coletiva. E que esse é o grande aprendizado que se impõe às novas lideranças, assim como poder respeitar e acolher a diversidade, o que é qualitativamente diferente de acolher um fator adverso. Agregar diferentes valores na realização de tarefas compartilhadas é, segundo o autor, condição sine qua non para se exercerem lideranças e coordenarem grupos na era da grupalidade que se avizinha.

As instituições, os sistemas sociais e os grupos em geral, são sempre instrumentos de busca e manutenção do poder. Assim como os indivíduos enfrentam momentos nos quais são capazes de inibir seriamente seu desenvolvimento psíquico e seus projetos de vida, utilizando-se de mecanismos autodestrutivos, é possível afirmar de forma análoga, que o mesmo pode ocorrer com as instituições e sistemas sociais. Isso pode ocorrer através de processos obstrutivos lentos, insidiosos, crônicos, nem sempre perceptíveis, até sob formas mais extremas, resultando no aniquilamento ou suicídio institucional, processos esses, que podem ser comparáveis às detenções no desenvolvimento e aos fenômenos regressivos, indo desde as fronteiras da normalidade até um funcionamento psicótico, quando as exigências da realidade são ignoradas, constituindo uma morte em vida, com a paralisação de seus projetos existenciais. Nesse caso, a organização passa a debilitar-se: enfraquece-se na busca de atingir seus objetivos primordiais (Osório, 2003).

O autor aponta alguns processos obstrutivos que podem ocorrer nos sistemas sociais, grupos e instituições, são eles baseados nos conceitos de Freud (1920), sobre o instinto de morte, que representa uma forma de inércia ao movimento em direção a vida, ao crescimento, à evolução, assim como às exigências de diferenciação e reconhecimento diante do outro. É algo que boicota ou sabota o desenvolvimento psíquico do indivíduo ou dos grupos. Tem por objetivo o retorno a um estado de onipotência original, ao narcisismo primário do bebê, à vivência original de plenitude anterior ao nascimento, nossa primeira experiência de castração e perda. Essas posturasnarcísicas, que se caracterizam por uma impossibilidade de sair de dentro de si para interagir com o outro (pessoa concreta ou objeto interno), devido à libido encontrar-se represada. Como conseqüência disso, observa-se uma menor capacidade de reconhecer direitos alheios, pelo impedimento da capacidade de admiração, provocados pelo sentimento de inveja. Também enumera a arrogância, o servilismo interesseiro, a hipocrisia, o mimetismo de opiniões e de intenções em relação à postura das lideranças institucionais, o que faz com que algumas pessoas cheguem a desconsiderar sua dignidade pessoal visando à obtenção de benefícios e poder. Tais condutas têm efeito estagnante para o processo grupal.

Ele considera a crise um ponto conjuntural necessário ao desenvolvimento, tanto dos indivíduos como de suas instituições, pois mobiliza as experiências acumuladas e possibilita uma redefinição dos objetivos pessoais e coletivos. O caminho para trabalhar esses comportamentos patológicos implica numa retomada dos objetivos (missões) organizacionais, não retroalimentando os interesses narcísicos de seus membros.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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