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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Por responder às mesmas estruturas sociais, as instituições tendem a adotar a mesma estrutura dos problemas que têm que enfrentar... a dissociação corpo-mente que rege os pacientes rege a própria instituição... Nas instituições que atendem doentes mentais esses problemas se tornam ainda mais agudos. Um dos que se apresentam é sempre o de uma forte dissociação entre os objetivos explícitos e implícitos da instituição (p.62).

Campos, G.W. (1998) é um dos profissionais responsáveis pelo desenvolvimento de formas modernas de planejamento e administração dos cuidados em saúde. Um dos dispositivos utilizados atualmente na preparação das equipes multi e interdisciplinares para atuarem segundo a nova visão de sujeito proposta pela reforma psiquiátrica consiste nas oficinas de planejamento e treinamentos. O autor afirma que o uso de tais dispositivos, pode auxiliar na transformação de posturas profissionais e dos valores institucionais somente em um nível racional. A prática mostrou que esses dispositivos não alcançam sucesso quando se trata de alterar a lógica estrutural dominante no funcionamento institucional, tanto no que se refere a dimensões gerenciais, quanto assistenciais. Eles acabam resultando em transformações pontuais.

Ao referir-se à transformação dos manicômios em instituições de saúde com novas tecnologias de tratamento, aponta que, apesar das mudanças estruturais, a antiga organização institucional continua a produzir subjetividade segundo a lógica dominante e não acompanha o rumo das mudanças propostas. Afirma que tanto a subjetividade, quanto a cultura de uma determinada organização são socialmente produzidas e resultam do modelo estrutural e administrativo da instituição, assim como da ordenação dos processos de trabalho. As equipes de trabalho reagem segundo os saberes dominantes, valores, posturas e responsabilidades de seus membros.

Campos, G.W. (1998) afirma que as características das instituições e de seus membros dependem também do contexto no qual estão inseridas, já que o valor de uso de um bem ou de um serviço é um produto sóciohistórico. Variam, portanto, de acordo com o estilo de governo e as estruturas de poder. Quanto mais verticalizada for a organização do sistema de poder e de tomada de decisões, maior será o grau de alienação e descompromisso entre os trabalhadores.

Tratar-se-ia de inventar uma nova ordem organizacional que estimulasse compromisso das equipes com a produção de saúde, sem cobrar-lhes onisciência ou onipotência, e permitindo-lhes, ao mesmo tempo, sua própria realização pessoal e profissional (Campos, G.W., 1998, p.5).

Para atingir os objetivos almejados, as equipes de profissionais sofreram transformações no processo de trabalho, baseadas no modelo de gestão colegiada, das equipes de referência, no apoio matricial e no projeto terapêutico individual. Esses recursos trouxeram transformações significativas na estrutura de funcionamento das instituições, o que permitiria uma maior horizontalização das relações de poder, assim como incrementaria a qualidade dos vínculos entre os trabalhadores de saúde, de forma a implicá-los mais no processo de mudanças, transformando-os em protagonistas dos mesmos. Isso poderia fazer com que houvesse um esforço institucional coletivo na tentativa de transformar as ideologias e valores dominantes da instituição, visando a um real desenvolvimento da mesma.

As colocações dele sugerem, no meu entender, que as práticas manicomiais são determinadas principalmente por mecanismos inconscientes, o que me faz pensar que não basta simplesmente implementar mudanças nos espaços físicos dentro dos hospitais psiquiátricos, modificar os nomes das instituições prestadoras de serviços, ou mudar a sua estrutura de funcionamento, pois a lógica manicomial permaneceria presente no inconsciente dos profissionais de saúde, dos pacientes e da comunidade. Isso alerta para a possibilidade de que, mesmo nos equipamentos substitutivos ao manicômio, prevaleça uma lógica manicomial no comportamento de seus profissionais e na cultura institucional, assim como a reprodução das relações assimétricas de poder. Parece-me que os dispositivos propostos por Campos, G.W. (1998), implicam transformações fundamentais na estrutura institucional, mas não garantem por si só, uma mudança efetiva. Para que esta possa ocorrer efetivamente, demanda-se um trabalho de uma outra ordem, da ordem do inconsciente, o que implica um investimento contínuo nos indivíduos que compõem a instituição e em sua forma de interação, além de um investimento em transformação social, o que é um processo extremamente lento, contínuo e complexo.

Osório (2003), desenvolveu em seu trabalho como psicanalista, psicoterapeuta de grupos e consultor organizacional, uma proposta de compreensão e intervenção institucional, que traz uma contribuição relevante para compreensão dos processos grupais que ocorrem nas instituições e equipes multi e interdisciplinares. Em seu trabalho como consultor, se utiliza de ferramentas bastante diversificadas, provenientes de diferentes marcos teóricos e técnicas de intervenção grupal, dentre eles a teoria sistêmica. Por se tratar de uma teoria da qual não domino os conceitos, vou trazer as palavras do autor, em formato de citação textual, para não incorrer em erros, mesmo correndo o risco de exagerar na quantidade de citações.

... Sistema humano é todo aquele conjunto de pessoas capazes de se reconhecer em sua singularidade e de exercer uma ação interativa com objetivos compartilhados. Hoje, esse conceito confunde-se com a própria noção do que seja um grupo humano, pois o referencial que o caracteriza é a interação entre seus membros. Portanto, emprego aqui as expressões grupos e sistemas humanos como equivalentes (Osório, 2003: p.57).

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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