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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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A experiência tem mostrado que, desde que o CAPS foi inaugurado, a demanda de pacientes cresceu rapidamente (em relação ao número de pacientes atendidos na época do HD), pois os Centros de Saúde têm progressivamente deixado de atender aos pacientes psicóticos e esses estão sendo encaminhados aos CAPS. Em poucos meses a população atendida dobrou. O atendimento de crise tem consumido muito tempo dos profissionais, que passam a dispor de cada vez menos tempo para desenvolver os PTIs de seus pacientes e a reabilitação psicossocial em si. O mesmo ocorre com as moradias. Os serviços têm ampliado demais sua capacidade de atendimento, sem ampliar seus recursos humanos, ou seja, sem considerar limites e real capacidade de atendimento, o que leva à uma queda da qualidade do atendimento oferecido.

5) PLANEJAMENTO EM SAÚDE

O planejamento de ações de saúde e o processo de comunicação institucional é o pano de fundo deste trabalho de pesquisa, pois, para analisar os fenômenos inconscientes que ocorreram durante o processo de mudança do CAPS, foi necessário descrever aspectos do funcionamento organizacional observados e que tiveram influência, no meu entender, na forma como este se desenvolveu.

Lapassade (1989), teórico da socioanálise, define instituição como um conjunto de atos ou idéias que se impõem aos indivíduos. A instituição abrange os costumes, os valores e os preconceitos, assim como as constituições políticas ou as instituições jurídicas essenciais, pois consideram todos os aspectos citados fenômenos de uma mesma natureza, que se diferenciam apenas quanto ao grau de influência de cada um na formação de cada instituição.

No caso de instituições que trabalham com a saúde, Bleger (1965) ao desenvolver sua proposta de intervenção institucional, enfatiza que esse tipo de intervenção tem como meta a melhora da realidade social, que é, segundo o autor, a responsável pela manutenção das doenças, do sofrimento psíquico, que afastam o homem de seu grupo social e familiar e que também impedem o progresso das instituições de forma geral.

Essa teoria foi desenvolvida para a atuação do psicólogo como consultor institucional, e pode ser aplicada em diversas áreas, inclusive na saúde mental. Assim como se preconiza atualmente na reabilitação psicossocial, segundo o autor, não importa mais a ausência de doença, mas o desenvolvimento pleno dos indivíduos e da comunidade total. Não se deve esperar o paciente adoecer para intervir e sim é preciso ir a campo, ao encontro dos pacientes.

Bleger (1965) propôs que o trabalho da psicologia institucional não seja somente tratar as problemáticas individuais de cada sujeito, mas sim incluir em suas atividades cotidianas as relações e tensões da própria instituição. Sugere examinar a própria instituição com um olhar psicológico: seus objetivos, funções, suas lideranças formais e informais, a comunicação entre seus integrantes, que pode se dar nos planos vertical (de um nível hierárquico a outro) e horizontal (independentemente da hierarquia).

Um segundo plano de intervenção seria a atuação sobre os grupos humanos dentro da instituição e também, sobre a comunidade que a cerca. Esse trabalho só pode ser designado a um psicólogo consultor e não a um psicólogo que seja funcionário da instituição, por este não poder ter a mesma liberdade que o primeiro para intervir e expressar suas idéias.

Neste trabalho de pesquisa, utilizarei alguns desses conceitos desenvolvidos por ele sobre o trabalho do psicólogo institucional, que serão um dos eixos teóricos deste trabalho pois, apesar de terem sido escritos no ano de 1984, permanecem bastante atuais.

Segundo o autor, o grau de saúde de uma instituição não se mede pela ausência de conflitos, mas pela possibilidade de explicitá-los e de buscar soluções para eles, dentro da própria instituição. Para isso se torna importante procurar romper com as estereotipias de comportamento, o que faz do psicólogo um agente de mudanças.

As instituições são representativas de ideais e valores que agregam seus membros, sendo também depositárias de partes da personalidade individual de cada um de seus integrantes e dos grupos que a compõem. Funcionam como suporte, fonte de segurança, oferecendo aos indivíduos uma forma de inserção social, que marca sua identidade.

Bleger (1965) nos alerta:

Quanto mais integrada a personalidade, menos depende do suporte que lhe presta uma dada instituição; quanto mais imatura, mais dependente é a relação com a instituição e tanto mais difícil toda mudança da mesma ou toda separação dela. Desta maneira, toda instituição não é só um instrumento de organização, regulação e controle social, mas, também, ao mesmo tempo, é um 'instrumento de regulação e de equilíbrio da personalidade' e, da mesma maneira que a personalidade tem organizado dinamicamente suas defesas, partes destas se acham cristalizadas nas instituições; nas mesmas se dão os processos de reparação tanto como os de defesa contra as ansiedades psicóticas (no sentido que M. Klein dá ao termo) ( p.55).

O autor aponta também para riscos que as equipes que trabalham na área da saúde comumente enfrentam, em seu dia-a-dia, muitas vezes sem ter consciência de que estes processos estejam ocorrendo.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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