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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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4) A CLÍNICA DO CAPS

A partir deste momento, deixo de descrever características e rotinas gerais dos Centros de Atenção Psicossociais e passo a me aproximar mais de meu objetivo de pesquisa. Sempre que me referir ao termo Centro de Atenção Psicossocial, estarei falando deste CAPS em especial, que foi oficialmente reconhecido em maio de 2002, momento que coincide com sua mudança para uma sede própria. Anteriormente, este CAPS era chamado de Hospital-Dia, funcionava desde 1991 na sede da instituição matriz e era uma das unidades assistenciais que compunham a mesma.

O serviço atende, aproximadamente 250 pacientes com diagnósticos principais de psicoses e neuroses graves, que demandam, em função da gravidade de seus casos clínicos, um tratamento intensivo e diversificado, oferecido por uma equipe interdisciplinar. É responsável pelo cuidado de quatorze moradias terapêuticas.

Passarei a utilizar, neste trabalho, o termo paciente e não usuário, como é, o termo usual dentro das instituições públicas de saúde ao se referirem à sua clientela. Ressalto que, "paciente" não está sendo usado no sentido pejorativo, ou seja, o de indivíduo doente, que responde às situações que o envolve de forma passiva, por não reagir às ações que o afeta. Mas o utilizarei com seu sentido mais amplo, pertinente para o papel de sujeitos que esses indivíduos ocuparam nesse momento de seus tratamentos no HD/CAPS. Segundo o Dicionário Houaiss de língua portuguesa, paciente significa aquele indivíduo sob cuidados médicos e aquele que tem a virtude da paciência, que persiste na realização de um trabalho, o que o aproxima nesse aspecto, da condição atribuída ao pesquisador no mesmo verbete deste dicionário.

Além dessa concepção mais ampliada, o uso do termo "paciente" justifica-se por ter uma representação importante para a psicanálise:

Aliás, ao usar a palavra paciente seria bom lembrar que ela não se refere tanto ao modelo médico, mas a uma das intuições mais profundas da 'antropologia psicanalítica': o homem é um ser pático, que aprende com o seu pathos coisas que não se aprendem em nenhum outro lugar. Pathei-mathos é a expressão grega que Bion pretendeu traduzir por aprendendo (mathos) com a experiência (pathei) ...(Rezende, 1993, p.114).

A clientela do CAPS freqüenta os atendimentos oferecidos por uma equipe interdisciplinar com uma periodicidade que pode variar de um mínimo de um atendimento por semana até um tratamento diário. Em períodos de crise, quando há demanda de pernoite, passa a utilizar o tratamento em período integral,.

Os pacientes podem ser encaminhados ao CAPS pelos Centros de Saúde e Prontos-Socorros, ou ainda podem chegar à instituição através de uma demanda espontânea, já que o CAPS funciona como porta de entrada para o sistema de saúde mental.

No CAPS existe uma maior concentração de pacientes e de profissionais durante o horário comercial. Às noites e aos finais de semana e feriados, o funcionamento ocorre na forma de plantões de equipes de enfermagem, nos quais não há a presença do médico psiquiatra, o que é considerado outro problema do modelo, tanto pelas equipes de saúde mental, como pelos pacientes.

Em casos de urgência médica, os profissionais de plantão devem acionar o serviço de ambulâncias do município. Anteriormente só dispunham de psiquiatras no período noturno, mas em função de inúmeras discussões e reivindicações, comprometeram-se, a partir de 2004 a contar com psiquiatras vinte e quatro horas, mas ainda não há uma data para o início deste atendimento. A prática provou que este recurso é indispensável até o momento. Mesmo assim, reconhecem-se suas deficiências, pois trata-se de um serviço que dispõe de poucas ambulâncias para atender às urgências clínicas e psiquiátricas de toda a cidade.

Durante os finais de semana e feriados há sempre um profissional de nível universitário (psicólogo, terapeuta ocupacional ou enfermeiro) que faz um plantão de seis horas, no período das 9h às 15h.

O CAPS não deve receber pacientes novos durante os horários de plantão, pois os leitos-noite são destinados aos pacientes já inscritos no serviço. Na prática, porém, nem sempre isso vem sendo respeitado.

O CAPS não dispõe, até o momento, de transporte próprio: deve sempre que necessário, solicitar um transporte na instituição matriz, ou contar com o serviço de ambulâncias do município. Ambas as opções implicam longos períodos de espera, pois são serviços de transporte com intensa sobrecarga de solicitações.

O CAPS oferece refeições para todos os pacientes que freqüentam o serviço e tem uma freqüência média de sessenta pacientes por dia. Os pacientes em geral são de nível sócio-econômico baixo e a maioria possui longa história de internações psiquiátricas.

A equipe do CAPS subdivide-se em quatro equipes de referência, compostas por um médico-psiquiatra, dois ou três profissionais de nível universitário (psicólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros - distribuídos aleatoriamente, independentemente de sua formação universitária) e um grupo de mais ou menos três auxiliares (ou técnicos) de enfermagem. Essas equipes são divididas aleatoriamente entre os períodos matutino e vespertino. O plantão noturno não se divide em referências, tendo um funcionamento independente.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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