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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Sempre que me referir aos gestores do CAPS durante este trabalho, estarei me referindo tanto aos membros do colegiado de gestão da Instituição Matriz, quanto aos profissionais que ocupam os principais cargos da secretaria de saúde e assessoria de saúde mental da prefeitura municipal, que chamarei de representantes da prefeitura.

A Instituição Matriz oferece à comunidade diversos equipamentos substitutivos ao manicômio como oficinas de trabalho, vinte e cincomoradias terapêuticas, três CAPS, um centro de convivência, uma casa-escola, além dos tradicionais setores de pacientes crônicos (pessoas com transtorno mental grave de longa duração) moradores da instituição, de uma unidade de internação para pacientes em crise e de um serviço de atendimento a dependentes de substâncias psicoativas. Esses equipamentos compõem o restante da rede de reabilitação psicossocial do município e são chamadas unidades assistenciais dessa instituição, que são as áreas responsáveis diretamente pela condução de algum tipo de tratamento, com exceção do Centro de Convivência, que não é designado internamente como um local de tratamento, mas sim como um espaço aberto de convivência.

O Centro de Convivência oferece atividades artísticas e culturais, bem como diversas oficinas. Apesar dessas atividades terem um efeito claramente terapêutico, o setor possui uma forma diferenciada de financiamento de suas atividades, quando comparado às unidades denominadas assistenciais: também não segue o mesmo protocolo burocrático dos outros setores, ou seja, há uma quebra intencional com o modelo convencional de tratamento oferecido nos outros setores que contam com médicos contratados, registram seus procedimentos no prontuário do paciente, prescrevem e dão medicação, têm posto de enfermagem, etc. Quando os pacientes do Centro de Convivência necessitam do chamado tratamento convencional, são encaminhados para outros setores da instituição matriz ou para os Centros de Saúde da rede básica ou, ainda, para os demais CAPS do município, dependendo da região em que os pacientes em questão residam.

Essa instituição dispõe, em parceria com a secretaria de educação, de uma casa-escola, na qual são oferecidos cursos de alfabetização (curso primário) e há atividades esportivas e culturais tanto para os pacientes em tratamento da instituição de saúde mental, quanto para a população que vive nas proximidades da casa-escola.

A instituição é, ainda, um importante espaço de formação acadêmica, pois, oferece estágios em diversas áreas de atuação.

Considero importante fazer uma breve descrição do tratamento oferecido por cada uma dessas unidades, pois ela pode auxiliar o leitor a compreender melhor as ideologias dominantes nas instituições de saúde mental, que aplicam em seus cotidianos os princípios do movimento de reforma psiquiátrica, assim como pode permitir uma melhor compreensão do contexto no qual as mudanças ocorreram.

- Oficinas de trabalho: As oficinas reproduzem em sua rotina as condições de qualquer trabalho, mas não estabelecem vínculo empregatício: são administradas por uma cooperativa de trabalho. Os trabalhadores têm direitos a receber férias. Têm como objetivo oferecer ao paciente psiquiátrico, que geralmente ao longo do desenvolvimento de sua doença perde a capacidade produtiva, a oportunidade de aprender uma atividade, que pode ser incorporada como uma profissão. A idéia das oficinas partiu do princípio de que o trabalho em si é terapêutico e auxilia na melhora do paciente em todos os níveis, uma vez que ele retoma sua condição de indivíduo produtivo, melhorando sua auto-estima e seu lugar social diante dos seus familiares. Os trabalhadores das oficinas recebem um salário mensal, que é calculado de acordo com sua produção naquele período e pode variar de um mês a outro, por ser estimado a partir das vendas dos produtos feitos nas oficinas. As vendas ocorrem em feiras de artesanatos, lojas de terceiros ou na loja da própria instituição. Os produtos das oficinas estão sendo diversificados e têm melhorado de qualidade com o passar dos anos. Atualmente as oficinas são em número de onze e empregam, aproximadamente, cento e noventa trabalhadores. Nelas o tratamento oferecido é o trabalho, o que as faz divergir das oficinas terapêuticas, cuja finalidade é o tratamento e não há ênfase na produtividade. Em função disso, as atividades destas últimas podem ser remuneradas ou não, quando há remuneração, costuma ser simbólica.

- Moradias terapêuticas: Os antigos hospitais psiquiátricos, quando começaram a trabalhar na lógica da desinstitucionalização, se viram diante de um grave problema: o que fazer com os pacientes moradores da instituição que não tinham mais casa ou vínculos com as famílias de origem? Como solução, foram criadas casas para esses pacientes fora dos hospitais, na comunidade, que funcionam com uma lógica semelhante à de repúblicas estudantis. Os pacientes são estimulados a morar em casas e são acompanhados, em seu cotidiano, pelas equipes de funcionários da instituição matriz, que auxiliam os moradores das casas, de acordo com seus diferentes graus de autonomia em suas atividades cotidianas, as quais envolvem as rotinas de qualquer casa (não se pode deixar de considerar, porém, o fato desses pacientes terem perdido, em função dos longos anos de internação, muitos de seus repertórios sociais e capacidade de trocas afetivas). A maioria dos profissionais acredita que os pacientes têm tido uma maior qualidade de vida nas casas e possibilidades de interações sociais ampliadas, se comparadas ao período no qual moravam na instituição. No entanto permanecem eles, em sua grande maioria bastante dependente da instituição matriz e a grande parte dos moradores das casas possuem um baixo grau de autonomia. Em todas as casas, costuma ocorrer uma dinâmica semelhante, pois um dos pacientes passa a ocupar um lugar de liderança e a fazer a função de cuidador dos demais pacientes da casa, função essa anteriormente ocupada exclusivamente pelos funcionários da instituição matriz. Os outros pacientes tendem a continuar a ocupar um lugar de maior passividade, validando ao paciente-cuidador seu lugar de autoridade e poder. Lidar com esses fenômenos das relações estabelecidas nas casas é uma das funções dos funcionários coordenadores de cada moradia terapêutica. Atualmente existem quinze casas. À medida que a média de idade de seus moradores aumenta, vai surgindo um desafio maior para as equipes que, administram essas casas: o aumento da demanda de cuidados clínicos.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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