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A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil Imprimir E-mail
Por Débora Isane Ratner Kirschbaum   
18 de outubro de 1996
Índice de Artigos
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil
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Também no Hospital Juliano Moreira dos anos 40, em função da falta de mecanismos formais de preparação, a aprendizagem era obtida no interior do processo de trabalho com os próprios colegas:

"Ela aprendeu com as próprias colegas, a chefe de pavilhão, as colegas. Naquele tempo, quando minha mãe entrou, era tempo de freiras, como as meninas devem ter dito. Era tempo de freira; não tinha aquele monte de enfermeiras não. Quando eu cheguei, só havia uma e era da sala de enfermagem. Agora, cada pavilhão tinha uma responsável; era uma colega. Depois foram chegando as enfermeiras."(Aux.Enf.A. A.R., p 6)

Neste preparo, obtido no interior do processo de trabalho e realizado pelo próprio pessoal de enfermagem que já se encontrava na instituição - mediante a transmissão oral de conhecimentos adquiridos na prática diária, sem qualquer sistematização - tinha-se como conteúdo principal o atendimento das necessidades de higiene e alimentação; as técnicas para administração de medicamentos; e as formas de se defender das possíveis manifestações agressivas dos pacientes. Transmitiam-se assim os conhecimentos que eram suficientes - e não mais que isso - para a manutenção da sobrevivência física dos internados e para o exercício da vigilância e do controle da disciplina no interior do espaço asilar.

Neste contexto, vê-se que a inexistência de quaisquer mecanismos estruturados de preparação foi percebida por uma das entrevistadas como um resultado da expectativa que se tinha em relação ao trabalho da enfermagem no Hospital-Colônia de Barbacena, no início dos anos 50:

"(...) Porque, naquela época que eu comecei a trabalhar aqui eles não me exigiam muitos estudos não, sabe, queriam mais era físico, porque eram muitos pacientes, muito agressivos. Então era a maneira que você tinha de trabalhar. Mas a gente não podia ser agressivo, também, com o paciente. A gente tem que lhe dar...o meu modo, estou te contando, assim, como eu trabalhava, sabe... como se fosse criança. Também eu achei assim, sabe. Chegava a hora, eles me respeitavam muito, sabe, mas chegava a hora de tratar eles com mais energia, então eu falava e eles me obedeciam. Então era aquela turminha gostosa, sabe. Eu sentia bem assim no meio deles, aquela coisa toda." (Atend.Enf.E.S., p. 1 )

Nota-se que, mesmo nos hospitais em que não existiam processos sistematizados de preparação do pessoal de enfermagem, havia uma assimilação dos princípios do tratamento moral: o uso da persuasão e da força física, quando aquela não fosse suficientemente eficaz para obter a obediência dos asilados; a infantilização dos mesmos. Neste sentido, desprovidos de outros instrumentos para que pudessem realizar seu trabalho, eles terminavam por mobilizar certos recursos para lidar com as situações cotidianas, originários da visão hegemônica no interior do espaço asilar e na sociedade vigente sobre a doença, o doente mental e as formas de tratá-lo.

Ainda que não tenham consciência da autoria e do lugar de produção de tal discurso, os próprios sujeitos da prática de enfermagem do final dos anos 50 reproduzem a concepção dos alienistas sobre as características que um enfermeiro de doentes mentais deveria possuir:

"E nessa, o atendente de psiquiatria, até hoje, mesmo ele sendo formado, se não for caridoso, ele não trabalha bem, não é? Porque cuidar de pessoas que estão muito desorientadas, que a família não quer, a família não considera, não reconhece a doença. E eles não têm a paciência que o empregado precisa ter, porque o empregado precisa do trabalho e ele só consegue trabalhar se ele tiver caridade, senão ele mata o paciente, não é, para ficar livre dele (...), mas o empregado, o funcionário da psiquiatria, ele quer que o paciente viva, para dar trabalho para ele, ao contrário da família. (...) Eu fiz um estágio para enfermagem geral na Santa Casa. Aquele tempo também...sim, já tinha curso de enfermagem na cidade, mas os hospitais não se ligavam muito em quem era formado. Se ligavam mais a quem estava disposto a trabalhar, em obedecer, em apreender dentro do próprio serviço. Então, eu fiz um estágio na Santa Casa de 6 meses. Apendi, fui por... Não tinha vaga na Santa Casa, eu fui trabalhar na Policlínica, não é? Na maternidade... Por lá fiquei mais uns 6 meses. Aí também peguei muita capacidade para agir na própria enfermaria do Hospital Colônia, não é? Mas, de maneira que, a gente não era formado, mas parece que se interessava muito com as coisas do paciente, não é? Então, parece que era mais preocupado e visava o médico, brigava com o médico, que o doente estava passando mal. E, apesar de não ser formado, também sabia se defender, não é, dentro do trabalho, a questão das doenças contagiosas e tudo, não é? Que geralmente, a gente aprendia com o pessoal mais antigo, não é, enfermeiros mais antigos, que sabiam se defender e ensinavam, que eles aprendiam também com os médicos. Porque quem era o professor de enfermagem era o próprio médico, porque, o médico, ele ensinava, chamava para ajudar numa anestesia, nas vezes em que não tinha anestesista. E o médico, ele ensinava a ética, não é? E como se fazia para correr tudo bem, não é? não prejudicar nem o paciente nem o trabalhador, não é. Era assim que se fazia. Agora, depois foi surgindo escolas, não é, diplomas... Então, foi modificando."( Aux.Enf.C.P., p. 3, 4) (grifo nosso)

Com algumas variações, a concepção deste informante de Barbacena sobre as características necessárias à prática da enfermagem nas instituições psiquiátricas é reiterada por outros entrevistados que, como ele, não foram submetidos a quaisquer processos sistematizados de preparação:

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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