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A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil Imprimir E-mail
Por Débora Isane Ratner Kirschbaum   
18 de outubro de 1996
Índice de Artigos
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil
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A opinião deste enfermeiro de que o fechamento da escola decorreu da pressão feita pelas enfermeiras que posteriormente fundaram a Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) é compartilhada por outras entrevistadas. A primeira é uma enfermeira que assumiu a docência da disciplina de Enfermagem Psiquiátrica, oferecida pela Escola de Enfermagem da UFRGS , a partir de 1952. Suas considerações a respeito do fechamento da Escola Profissional de Enfermagem do Hospital São Pedro são reproduzidas abaixo:

"É, isso foi uma luta que eu não sei se foi muito justa. (Os enfermeiros do São Pedro) Eram pessoas muito dedicadas, mas eles eram funcionários do Governo...(...)Eles ficavam muito vaidosos, porque eles tiveram um curso regular, com médicos. Eles vinham e me mostravam os currículos, que eles tinham recebido durante o curso. Então, eles sabiam muitas coisas de psiquiatria e de sintomatologia. E a Escola de Enfermagem (da UFRGS) fez terminar a Escola de Enfermagem existente no São Pedro. (...) A Escola (da UFRGS) conseguiu mostrar que que a Legislação era outra; que não se podia ter uma Escola num hospital que não tivesse um grupo de enfermeiros, que não lecionasse procedimentos de enfermagem. Não bastava que os alunos recebessem aulas de médicos...Isso foi conseguido politicamente. A diretora era muito boa, Lourdes Verderese, e a Olga, era vice-diretora, que era a irmã dela. De maneira que terminou. Eles não perderam o nome (de enfermeiros), pois o nome ficou no quadro. Porém, perderam, vamos dizer, a posição de enfermeiros psiquiátricos." (Enfa. N.M.Z., p.7)

A segunda, uma irmã de caridade, atribuiu o fechamento da escola do Hospital São Pedro ao processo que culminou com a abertura da Escola de Enfermagem da UFRGS:

"Mas depois disso, que se abriu a Escola de alto padrão, que chamavam, não sei em que ano foi. Daí, então, anularam esta daqui. Não sei se foi a Secretaria ou o quê, não é? (A Escola do Hospital São Pedro) já não era reconhecida mais como escola superior, (antes) ela tinha um cunho, assim, ela era especializada, como escola superior. Tanto assim, que as enfermeiras que se aposentaram o fizeram como enfermeiras. Depois, (quando da aposentadoria, o diploma) passou a ser reconhecido. Então, terminou, não continuou mais, porque não era reconhecido pelo Conselho (de Enfermagem). Ela existiu até que foi criada a outra (da UFRGS) e então, ela parou." (Ir.P.C.,p.20)

Entretanto, a extinção da Escola Profissional de Enfermagem do Serviço de Assistência a Psicopatas também esteve relacionada às questões regionais, de natureza político-partidária, de acordo com o que foi apontado por alguns entrevistados. Quando questionado sobre os motivos que acarretaram seu fechamento, um dos professores atribuiu-o às divergências de natureza político-partidária, que marcavam as relações entre o Diretor do Hospital e o Secretário de Saúde daquela época:

"Eu...depois que saí de lá, soube assim de longe de coisas que iam acontecendo, de ordem política. O Hospital São Pedro, no tempo do Dr. Godoy...Primeiro ele ( o Hospital) era independente, mas o Departamento de Saúde era uma área pequena e fraca. Cuidava-se de alguma coisa, da profilaxia. Mas não era um elemento lutador(sic!). Precisamente, nesse período em que fui para lá (Hospital São Pedro), tinha vindo para cá (Porto Alegre), o Dr. Bonifácio Guimarães da Costa, que criou o Departamento Estadual de Saúde, um modelo muito bom. Ele era um homem muito poderoso, de muita autoridade, que não se acertava muito bem com o Dr. Godoy, porque o Dr. Godoy tinha...O Dr. Bonifácio era um homem da Saúde Pública e o Dr. Godoy tinha, um pouco, o hábito de certa superioridade, que tinham os médicos que tratavam os doentes sobre aqueles médicos que matavam mosquitos, que...A Saúde Pública , com exceção de alguns como Fábio Barreto, entre outros, que eram de São Paulo, poucos eram de primeira qualidade como Chagas, Oswaldo Cruz também. De modo que lá, as possibilidades provavelmente eram diferentes, mas, digamos assim, no resto do Brasil, nós, os médicos, é que sabíamos fazer os diagnósticos e tratar de algumas coisas, pois, se não tratassemos, não valia nada para depois. Então fazia-se um tratamento duradouro." (Dr. R.M.,p.5)

Observa-se que havia uma disputa por espaço político e uma divergência entre os sanitaristas e os demais especialistas da categoria médica no Rio Grande do Sul, no período em que a escola foi extinta. Pelo que sugere este depoimento, o fortalecimento político do Secretário de Saúde, cujos interesses não coincidiam com os do diretor do hospital, criou um campo fértil para a extinção da Escola Profissional de Enfermagem do Serviço de Assistência a Psicopatas, ao mesmo tempo em que vinham se desenvolvendo as negociações para a criação da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É interessante notar que o grupo de enfermeiras responsável pela criação da última encontrou no Secretário de Saúde um forte aliado na época, segundo sugere o depoimento da enfermeira entrevistada, reproduzido anteriormente.

O enfermeiro entrevistado também apontou mudanças no âmbito da política estadual que, associadas à regulamentação do ensino e do exercício da enfermagem no país, estiveram relacionadas com a desativação da escola:

"Olha, sinceramente eu não sei porque. Eu acredito que então o nível superior achou que seria uma humilhação para elas. Eu digo elas, porque, naquele tempo, só era quase tudo mulher. Haver um homem era muito difícil (ênfase). Hoje já tem bastante homem. Naquele tempo não existia. Eu acredito que fosse isto, não sei... Mas, o problema era que o Dr. Jacinto, em 1951 ou 52, ele foi substituído depois de quase 30 anos de Hospital São Pedro. Tiraram ele. E outra coisa é que o que segurava o Dr. Jacinto era o falecido Dr.Getúlio Vargas. Houve um problema aí, não sei o que. Então foi substituído." (Enfo. J.C., p.15)

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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