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A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil Imprimir E-mail
Por Débora Isane Ratner Kirschbaum   
18 de outubro de 1996
Índice de Artigos
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil
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"é a da diferença, implicando numa descentração radical em relação à sociedade da qual faz parte o observador, isto é, uma ruptura com qualquer forma, dissimulada ou deliberada de etnocentrismo. Pois, apenas o que percebemos (em estado manifesto ou latente) em uma outra sociedade, nos permite visualizar o que está em jogo na nossa, mas que não suspeitávamos. Essa experiência de arrancamento de si próprio age, na realidade, como um verdadeiro revelador de si."

Como o autor acima salienta, esta possibilidade aberta ao pesquisador de comprensão de si, a partir da observação do outro não ocorre apenas quando observa sociedades e práticas diferentes daquelas em que ele vive ou atua, mas também quando ele analisa a própria sociedade em que vive e as práticas sociais nela desenvolvidas sob uma perspectiva antropológica. O que significa analisar os processos sociais segundo uma "variabilidade da cultura" (Laplantine, 1993, p.162). Mas, Laplantine (1993) adverte que, para superar os dilemas colocados pelo evolucionismo, que foi a primeira forma de análise comparativa utilizada pela antropologia, e pela antropologia cultural, que tende a interpretar as variações culturais como expressão de formas invariantes, o pesquisador deve adotar a seguinte posição:

"Lembremos em primeiro lugar que a análise comparativa não é a primeira abordagem do antropólogo. Este deve passar pelo caminho lento e trabalhoso que conduz da coleta e impregnação etnográfica à compreensão da lógica própria da sociedade estudada (etnologia). Em seguida apenas, poderá interrogar-se sobre a lógica das variações da cultura (antropologia)" (Laplantine, 1993, p.163)

Feitas estas considerações, veja-se agora como a abordagem antropológica foi incorporada pelos estudiosos da história oral, nos quais a autora baseou-se inicialmente para estabelecer os procedimentos metodológicos utilizados nesta pesquisa.

Retomando o problema que deu origem ao presente estudo, observa-se que devido às características das práticas de enfermagem e à posição subordinada e complementar às práticas médicas que elas ocuparam historicamente no campo da assistência psiquiátrica em nosso país, até a primeira metade do século XX, são poucos os registros escritos de que dispõe o pesquisador que se propõe a investigá-las. Disto decorre a necessidade de recorrer a metodologias de pesquisa que possibilitem ao pesquisador produzir documentos que constituam fontes primárias de pesquisa para posterior análise e que, deste modo, permitam a reconstituição histórica de determinadas práticas profissionais, num determinado período, dada a carência de registros escritos sobre a mesma.

Segundo alguns autores (Queiroz, 1987; Alberti, 1989; Thompson, 1992), a metodologia denominada por história oral foi desenvolvida originalmente pela antropologia e pela sociologia nas primeiras décadas do século XX, tendo sido relegada a segundo plano após a segunda guerra, quando da ascensão dos métodos quantitativos de pesquisa, pois acreditava-se que a realidade podia ser retratada com maior objetividade através de modelos matemáticos e estatísticos, menos sujeitos a subjetividade do pesquisador e, portanto, livres das distorções provocadas pelas interpretações deste durante a coleta do material de pesquisa, os relatos orais.

Entretanto, com o desenvolvimento tecnológico, o surgimento do gravador possibilitou o resgate da história oral como metodologia de pesquisa, uma vez que aquele reduzia sobremaneira as distorções no registro dos dados coletados.

Segundo Queiroz (1987), a posterior transcrição das gravações, quando feita de forma adequada , transformava o depoimento oral num documento escrito que passava a ter o mesmo valor dos demais documentos tradicionalmente utilizados como fonte primária nas pesquisas (relatórios, correspondências, narrativas escritas), uma vez que também estes, quando produzidos, tratavam de retratar a realidade conforme a interpretação de seus autores na época do registro, estando também sujeitos a mesma subjetividade atribuída ao relato oral.

A partir dos anos setenta, foram criados programas de história oral em instituições de pesquisa no Brasil (Alberti, 1989), o que propiciou o aprimoramento das técnicas empregadas em trabalhos desta natureza e o reconhecimento da história oral como uma metodologia de pesquisa com o mesmo grau de credibilidade dos métodos de cunho quantitativo.

Neste trabalho, adota-se a concepção de História Oral, definida por Verena Alberti como:

"(...) um método de pesquisa ( histórica, antropológica, sociológica, etc ) que privilegia a realização de entrevistas com pessoas que participaram de, ou testemunharam, acontecimentos, conjunturas, visões de mundo, como forma de se aproximar do objeto de estudo. Como conseqüência, o método da história oral produz fontes de consulta ( as entrevistas ) para outros estudos, podendo ser reunidas em um acervo aberto a pesquisadores. Trata-se de estudar os acontecimentos históricos, instituições, grupos sociais, categorias profissionais, movimentos, à luz de depoimentos de pessoas que dele participaram ou os testemunharam." (Alberti, 1989, p.1-2)

Neste sentido, a história oral inscreve-se como método no interior das abordagens qualitativas e, para além da questão dos procedimentos de coleta de dados, coloca novos problemas de pesquisa.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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