Cândido Escola
Teses
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil | A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil |
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| Por Débora Isane Ratner Kirschbaum | |
| 18 de outubro de 1996 | |
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Uma análise mais detida das características apresentadas por tal sistema de ensino ajuda a compreender muitos dos aspectos trazidos pelos depoimentos. Até 1930, havia dois sistemas paralelos: um, que constituía o nível elementar e destinava-se à educação popular, era composto pelo ensino primário, normal e técnico-profissional. Outro, destinado às elites, era constituído pelo ensino secundário e pelo superior. Este tipo de organização do ensino dificultava extremamente a profissionalização feminina em carreiras mais valorizadas socialmente, já que o ensino primário só dava acesso direto ao ensino normal e ao técnico-profissional - que por suas características, na época, preocupavam-se mais em preparar as mulheres para assumirem atividades domésticas - e estes não permitiam o acesso direto aos sistemas secundário e superior. Além disso, no que diz respeito ao ensino primário, as escolas mistas só foram admitidas no final do século XIX e o número de estabelecimentos de ensino destinados exclusivamente às meninas era extremamente reduzido, além de serem, em sua maioria, particulares, o que dificultava o acesso às classes menos favorecidas [5] . Até a década de 30 houve uma relativa expansão dos estabelecimentos de ensino primário oficiais; contudo, esta não favoreceu efetivamente a democratização da educação popular. Para se ter uma idéia das dificuldades enfrentadas pelas mulheres para obter requisitos mínimos que lhes permitissem ascender aos outros níveis de ensino, basta dizer que, em 1940, somente 43,1% da população brasileira era alfabetizada, sendo que, deste total, 48,3% correspondia ao sexo masculino e 38%, ao sexo feminino (Saffioti, 1976, p. 215). Até as primeiras décadas do século XX, embora existentes em pequeno número, as Escolas Normais pertencentes ao sistema oficial representavam uma das poucas opções de continuidade do ensino elementar para o sexo feminino (Saffioti, 1976). No entanto, seu caráter profissionalizante fora limitado pela concepção dominante de papel feminino na sociedade da época. No período compreendido entre as duas últimas décadas do século XIX, quando foi criada, e a década de 30, a Escola Normal teve como finalidade preparar suas alunas para o casamento e para a educação dos filhos, sendo " procurada por moças sem intenções de desempenhar as atividades profissionais a que lhes daria direito o título de normalistas eque a ela acorriam em busca de uma cultura geral mais ou menos equivalente ao ensino secundário." (Saffioti, 1976, p. 222). Além disso, pelo seu caráter terminal, não proporcionavam o acesso direto nem ao ensino secundário e superior, nem a certos cursos profissionalizantes. A Escola de Enfermeiras Anna Néry, por exemplo, além de exigir a comprovação da conclusão do normal, requeria para a matrícula a comprovação da aprovação da aluna em exames realizados pelo Ginásio Pedro II, ou a realização de provas, cujo conteúdo era o mesmo exigido nos exames deste estabelecimento oficial, conforme se verifica no prospecto de 1931 da referida escola. Mesmo os estabelecimentos de ensino técnico-profissional (outra via de acesso possível à profissionalização) não proporcionavam às mulheres uma formação que lhes permitisse a inserção no mercado de trabalho em igualdade de condições com o sexo masculino, uma vez que elas constituíam a porção majoritária da clientela que frequentava os cursos rápidos por exemplo, datilografia e taquigrafia) oferecidos por aquelas instituições (Saffioti, 1976, p. 221). Portanto, conforme assinala Saffioti (1976), o ensino feminino pós-primário tinha um cunho doméstico, não capacitando as mulheres efetivamente para exercer uma profissão, sendo que no plano intelectual não possibilitava a elas condições de equipararem-se ao sexo masculino. Por outro lado, mesmo às mulheres provenientes das famílias mais abastadas, o acesso ao ensino superior era extremamente dificultado, apesar de autorizado legalmente desde 1882. Conforme Hahner (1981, p.68), as dificuldades para ingressar no ensino superior eram tão grandes que apenas uma moça conseguiu concluir o curso de direito e duas o curso de medicina até o final do século passado, no Rio de Janeiro. A necessidade de comprovação da formação secundária foi a principal barreira enfrentada pelas moças que almejavam as profissões de maior prestígio social. Como o ensino secundário feminino era monopolizado pelas escolas religiosas e estas não eram equiparadas às oficiais, as moças eram obrigadas a prestar exames que comprovassem sua capacitação para realizar um curso superior (Saffioti,1976, p.219). Diante do exposto, conclui-se que a Escola Profissional de Enfermeiras Alfredo Pinto significava uma singular oportunidade de profissionalização para as jovens que não dispunham de recursos financeiros, pois oferecia-lhes vantagens que dificilmente seriam obtidas em outros estabelecimentos de ensino pós-primário. Contudo, a despeito da gratuidade do ensino, da existência do internato e até mesmo da remuneração extra recebida pelas alunas internas, as condições de vida das candidatas podiam ser tão desfavoráveis que por si só representavam uma barreira à realização do curso, como se pode verificar a seguir: "Passei (ênfase). Mas eu... Minha mãe recebia do meu padrasto 5000 cruzeiros. Agora,nós... Ela tinha a casa. A casa era dela. Mas não tinha 5000 cruzeiros que dava para duas pessoas viver, para comer, para morar... Não dava (ênfase). E eu, então, fui na Alfredo Pinto, para justamente ficar interna. Eu queria ficar interna (ênfase). Aí, eu cheguei lá, me inscrevi e tal, e passei tudo...Quando foi no...Quando eu fiz os exames, passei, saiu a lista. Eram quinze internas e quinze externas. As externas não ganhavam nada e as internas ganhavam 15000 cruzeiros. Além de interna ainda ganhava, e a gente externa não ganhava nada. Daí eu fui. Bom, vou desistir (pensou). E quem ia me sustentar? Eu morava em Grajaú, para ir para o Engenho eram duas conduções, aliás, três conduções que tinha que tomar. Como é que eu ia arranjar um emprego? Eu disse: `Bom, então eu vou desistir. Mas é que eu estava na casa da mãe do meu padrinho, onde eu fui criada, não é? Eu estava com a minha mãe, mas eu estava sempre lá. Fui criada lá. E eu, quando fiz os exames, tudo, eu fui para lá. Meu padrinho morava no Grajaú, morava lá há tempos, na casa da mãe dele. Ele morava numa rua, a mãe dele morava na outra rua ali. Daí, eu fui. Quando eu fui, saiu a lista das classificadas. Eu fui ver, saí em vigésimo sétimo lugar. Passei. Daí, cheguei em casa. Essa diaba, que eu tô dizendo que tinha lá, morava com a avó. E ela era sobrinha do meu padrinho. E ele se interessou por mim, tirou os papéis todos para mim e tudo o mais. Mas, aí, ele foi lá, e perguntou: `Como é? Passou?' E ela disse assim: `Passou, mas ela não vai conseguir cursar não (ênfase)' E ele disse:`Por que?' (E ela respondeu):`Por que ela passou no externo e ela não tem dinheiro. Como é que ela vai fazer todo dia para ir todo dia para a escola? Não tem dinheiro (ênfase).' (E o padrinho respondeu): ` Ah, não. Ela pode entrar 'O pior ela fez, passou. Não. Diz prá ela que ela vai se matricular, vai fazer tudo que eu ajudo. Eu ajudo.(...).' Então, aí, eu tomei coragem. `Bem, (pensou), ele vai ajudar.' E fui (ênfase)" (Enfa. P. B., p.2-3) 64,65
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| Última Atualização ( 23 de junho de 2008 ) |
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