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A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil Imprimir E-mail
Por Débora Isane Ratner Kirschbaum   
18 de outubro de 1996
Índice de Artigos
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil
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A apreensão das características assumidas pelas práticas de enfermagem até hoje observadas nos hospitais psiquiátricos e que possibilitaram a constituição e a consolidação do modelo assistencial asilar que se tornou hegemônico no país, segundo inferia-se desde o início desta pesquisa, passa necessariamente pelo exame dos processos de preparação formal e informal do pessoal de enfermagem empreendido pelos psiquiatras nas instituições psiquiátricas brasileiras no período compreendido entre as décadas de 20 e 50.

Todavia, a realização de um estudo desta natureza enfrenta inúmeras dificuldades, pois tais práticas de enfermagem não foram objeto de registros escritos e as únicas referências de que se dispõe consistem em raras caracterizações dos agentes de enfermagem produzidas pelos psiquiatras, que não possibilitariam realizar a análise pretendida. Colocou-se, deste modo, a necessidade de proceder primeiramente a uma reconstituição histórica das práticas de enfermagem, para que houvessem fontes primárias sobre as quais se pudesse produzir este estudo.

Sendo assim, o objetivo geral deste estudo é:

Reconstituir historicamente a formação do saber e das práticas de enfermagem, desenvolvidas no campo da assistência psiquiátrica, no período compreendido entre as décadas de 20 e 50, no Brasil.

E seus objetivos específicos foram:

a) Identificar as motivações que levavam os sujeitos da pesquisa a trabalhar em enfermagem no campo da assistência psiquiátrica;

b) Reconstruir o processo de preparação do pessoal de enfermagem para trabalhar em instituições psiquiátricas brasileiras no período de 1920 a 1950;

Partindo-se da hipótese de que:

A formação do saber e das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica baseou-se nas concepções de doença mental, de assistência ao doente mental e de formas de tratá-lo dominantes na psiquiatria brasileira, no período compreendido entre as décadas de 20 e 50 do presente século.

  1. Metodologia

  2. 1. O Método: A História Oral

Neste estudo, as práticas de enfermagem foram abordadas sob uma perspectiva histórico-antropológica. A história antropológica, corrente de pensamento da qual origina-se a história oral, foi desenvolvida originalmente pelos historiadores franceses ligados à Escola dos Annales (Dosse, 1992; Laplantine, 1993) e tornou-se mais conhecida sob a denominação de história das mentalidades. Ela representa uma abordagem alternativa à historiografia tradicional, na medida em que toma por objeto a vida cotidiana, o homem comum, os fenômenos sociais não escritos, não formalizados (Laplantine, 1993) e não mais os grandes personagens da história, os grandes ciclos ou períodos históricos e utiliza-se do método etnológico, desenvolvido pela antropologia cultural para apreender seu objeto.

Segundo Laplantine (1993, p. 152-3),

"a abordagem etnológica consiste em dar uma atenção toda especial a esses materiais residuais que foram durante muito tempo considerados indignos de uma atividade tão nobre quanto a atividade científica. É uma abordagem claramente microssociológica, que privilegia dessa vez o que é aparentemente secundário em nossos comportamentos sociais. Disso resulta um deslocamento radical dos centros de interesse tradicionais das ciências socias, para o que chamarei de infinitamente pequeno e cotidiano." (grifo no original)

Por infinitamente pequeno, Laplantine (1993) entende as práticas cotidianas desenvolvidas pelas pessoas comuns em suas casas, seus locais de trabalho, seus gestos, suas expressões corporais, seus hábitos, suas representações sociais sobre determinados aspectos relacionados à cotidianeidade.

Ainda segundo este autor, o que caracteriza a abordagem antropológica é o esforço em levar em conta tudo o que acontece no campo de pesquisa, ou seja, tudo deve ser observado, anotado, mesmo que não diga respeito ao tema da pesquisa, pois:

"De um lado, o menor fenômeno deve ser apreendido na multiplicidade de suas dimensões (todo o comportamento humano tem um aspecto econômico, político, psicológico, social, cultural,...)(sic). De outro, só adquire significação antropológica sendo relacionado à sociedade como um todo na qual se inscreve e dentro da qual constitui um sistema complexo." (Laplantine, 1993, p.156)

Conforme Laplantine (1993, p. 156), isso não significa, no entanto, que o pesquisador seja capaz de conhecer o objeto de estudo na sua totalidade concreta, nem que ele possa isolar experimentalmente objetos, pois, segundo ele salienta, esta atitude

"não cabe no modo de conhecimento próprio da antropologia, pois o que esta pretende estudar é o próprio contexto no qual se situam esses objetos, é a rede densa das interações que estas constituem com a totalidade social em movimento."

Além da exigência de investigar o objeto na sua totalidade, outra característica primordial da abordagem antropológica é a realização da análise comparativa. Tal característica está relacionada à propria problemática da disciplina que, segundo Laplantine (1993, p.160),

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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