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A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil Imprimir E-mail
Por Débora Isane Ratner Kirschbaum   
18 de outubro de 1996
Índice de Artigos
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil
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"Consultas psiquiátricas, que necessitavam de remédios, que não eram muitos (riso). Lá, os epiléticos levavam Luminal, e outros levavam uns poucos medicamentos sedativos que existiam. E a terapêutica, a terapêutica medicamentosa era qual? E a psicoterapia não existia (riso). Só existiu depois que foram se intensificando os conhecimentos psicanalíticos. Na realidade, nós, jovens neurologistas e jovens psiquiatras não tínhamos clientes. Uns mais antigos que chegavam e se internavam; ficavam lá. Depois que veio o eletrochoque, insulinoterapia, depois o cardiazol. Já a malario, que era antes, que se fazia na paralisia geral, que a sífilis. Então, tínhamos, tínhamos pacientes. Poucos pacientes eram internados e tal... Eu internei muitos pacientes. Mas, durante anos se fez aplicações de eletrochoque. Que eram verdadeiros choques. A gente fazia com a melhor das intenções e com a maior boa fé. E, a bastante ignorância (riso). E, mas depois, com o conhecimento psicanalítico, a gente foi aprendendo com a psicanálise e foi usando a psicoterapia também, não é? Bom, e eu, quando voltei de Buenos Aires, que em Buenos Aires, eu estava lá quando se deu a grande (ênfase) explosão da psicoterapia de grupo. Aquele entusiasmo e tal, até no pátio, como se diz, por cinquenta minutos, se faziam grupos, com psicoterapia de grupo. Eu comecei, então, como observador de um grupo e quando vim para cá, eu já tinha certa experiência, não é? E eu pedi para continuar no Serviço Aberto e para fazer somente psicoterapia de grupo. Então, como a clínica era enorme, tínhamos grupos de até doze pessoas, um número consideravelmente alto, mas não havia outro modo. Uma frequência enorme de pacientes que tinhamos, mas só eu fazia grupo. Aí alguns colegas mais jovens vinham assistir como observadores. Esteve aqui, por iniciativa minha, o Arnaldo Rascovski, há vários anos atrás, que aliás foi meu analista, e que trabalhou um pouco aí na Melanie, fazia demonstrações, não se assimilou muito, mas começaram a fazer psicoterapia. "

E- Então, até os anos 40 são praticamente os tratamentos baseados no uso de certos medicamentos e nas terapias de choque, como o senhor disse.

"No uso de medicamentos, é com medicamentos também. Hoje tem outros recursos psicoterápicos, muitos de base psicanalítica." (Dr. C. M., p. 7 )

Ainda que a finalidade do Serviço Aberto fosse a prevenção da cronificação produzida pela internação hospitalar de longa duração, através da oferta de tratamento ambulatorial, outras estratégias adotadas na época pretendiam ter um alcance mais amplo, inscrevendo-se no campo que então se denominava Profilaxia Mental, em Porto Alegre. Um exemplo desta pretensão de estender a influência das formas de intervenção da psiquiatria para além dos limites do hospital foi o Curso de Biopsicologia Infantil, organizado pelo Diretor do São Pedro e pelo Diretor do Serviço de Saúde Pública, destinado às professoras das escolas públicas. Segundo Jacintho Godoy (1952), o curso tinha por objetivo oferecer noções de neuropsiquiatria às professoras, com o intuito de prepará-las para identificar sinais de psicopatias ou de retardo na aprendizagem entre seus alunos, assim como dissipar preconceitos em relação a doença mental. Seu discurso, proferido quando da abertura do referido curso, expressa a concepção que no final dos anos 40 possuía de Higiene e Profilaxia Mental e os objetivos que pretendia alcançar com a divulgação dos conhecimentos de neuropsiquiatria entre os professores, da seguinte maneira:

"Um perigoso preconceito pesa sobre as doenças mentais, que as famílias procuram ocultar como degradante, protelando a consulta ao psiquiatra e a hospitalização do doente, iludindo-se com explicações sobrenaturais dos sintomas que, muitas vezes, são a expressão de lesões orgânicas do cérebro. Não é desonroso ser doente do cérebro. As doenças mentais não são diferentes das outras doenças, nem o apanágio de famílias deserdadas. Cada um de nós, em determinadas circunstâncias da vida, a despeito da aparente robustez física, pode ser acometido de psicopatia. O cérebro humano é um órgão muito frágil que a vida coletiva submete a rude prova. Numerosas são as causas suscetíveis de ferir o nosso psiquismo, de romper o seu equilíbrio, de privar a nossa inteligência e o nosso corpo do contrôle de que não podemos prescindir. A tuberculose, a sífilis, o alcoolismo, o câncer são causas conhecidas, mas não as únicas. Uma infecção, uma fadiga, o surmenage prolongado, as emoções, podem e, às vezes, bruscamente, desencadear distúrbios psíquicos, os mais graves. O nosso Hospital, numa segunda fase de existência, sob uma nova lei de proteção aos psicopatas, orienta-se na moderna campanha da profilaxia mental, cujas bases repousam na noção de que, se socialmente o cérebro é o homem, fisiologicamente o cérebro é um órgão como qualquer outro, sujeito às mesmas leis naturais, leis que devem ser respeitadas, não podendo ser infringidas impunemente, a fim de que, seguindo o seu desenvolvimento normal, ela possa dar o máximo de potencialidade, de rendimento social, campanha que visa medir os limites da resistência mental, as qualidades e as condições do esforço permitido ao cérebro normal, a sua melhor adaptação, em suma; colocando cada indivíduo no seu lugar- The right man in the right place; limitando o rendimento de cada um às suas próprias possibilidades, mas permitindo-lhes empregá-las integralmente; descobrindo os predispostos, a fim de colocá-los ao abrigo das causas ocasionais das psicoses e permitindo às pessoas normais a melhor utilização de suas faculdades, e para tal, fazendo apêlo ao concurso de tôdas iniciativas privadas na luta contra o alcoolismo e os estupefacientes; na profilaxia da sífilis e da tuberculose; promovendo por meio de laboratórios de psicotécnica, a orientação profissional dos trabalhadores; divulgando o ensino psiquiátrico entre os profanos e até nas camadas populares, a fim de dissipar os preconceitos do público sobre a loucura , que não é uma moléstia misteriosa, como se pensa, mas natural e curável e sobretudo evitável, pois as suas causas são conhecidas, a ponto de se poder dizer que, dos doentes internados, 40 % poderiam ficar no lar, sãos, úteis e felizes, se a tempo tivessem seguido os conselhos da psiquiatria preventiva; e finalmente, empenhando-se na cruzada, de todas a mais relevante, a de proteção à infância, pela seleção de escolares, aos quais se deve ministrar a eduçação, em vez de cegamente uniforme, melhor adaptada aos indivíduos.(...) Vós conheceis todas, ao menos em linhas gerais, o que é mister a todo educacionista saber sobre anormais e atrasados. Ao lado dêstes, há pequenos psicopatas nas suas primeiras manifestações mórbidas e outros, aparentemente normais, mas de julgamento falho e cujas reações de conduta revelam uma predisposição doentia. O bom educador deve suspeitar, senão fazer o diagnóstico precoce dêsses distúrbios ou ao menos distinguir anomalias e defeitos.(...) De tudo o que venho dizendo chega-se enfim a esta conclusão transparente: a escola é verdadeiramente a primeira etapa da nossa campanha de profilaxia mental." (Godoy, 1952, p.187-8, 194) .

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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