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A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil Imprimir E-mail
Por Débora Isane Ratner Kirschbaum   
18 de outubro de 1996
Índice de Artigos
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil
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Ocorre que os estabelecimentos de ensino considerados oficiais, porque vinculados ao modelo Nightingale [1]não participaram das experiências de preparação formal e informal de pessoal de enfermagem para trabalhar em hospitais psiquiátricos e em programas de Higiene Mental nas décadas de 20 a 40. Somente nos anos 40, quando se deu a expansão numérica daqueles estabelecimentos de ensino a chamada enfermagem profissional fez sua entrada nas instituições psiquiátricas brasileiras, num processo marcado, aliás, por inúmeros conflitos, conforme examinar-se-á ao longo deste trabalho.

A partir da análise histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no Brasil, no período compreendido entre os anos 20 e 50, a presente investigação pretendeu trazer uma contribuição para a história da enfermagem psiquiátrica em nosso país, assim como demonstrar que as características assumidas pelas práticas de enfermagem nas instituições psiquiátricas e as ações operacionalizadas por seus agentes não possuíam um grau de autonomia em relação aos diversos projetos terapêuticos formulados pela psiquiatria. Estavam, ao contrário, profundamente articuladas a eles, em diferentes momentos e tal articulação, como se procurará mostrar, deveu-se ao fato de que historicamente práticas e agentes de enfermagem constituíram um dos elementos fundamentais para a implementação dos diferentes projetos psiquiátricos em cada época.

Através deste estudo, foi possível verificar que os agentes de enfermagem e as práticas por eles desenvolvidas constituíram um elemento fundamental para que os hospícios se tranformassem num instrumento terapêutico (ou seja, em um espaço não só de exclusão social, como também de produção de saber sobre a loucura e os meios de curá-la), pois os psiquiatras delegaram à enfermagem a execução dos procedimentos disciplinares e dos métodos terapêuticos que possibilitavam manter a ordem no interior do espaço asilar e produzir um saber [2]sobre o doente, a doença mental e o modo de tratá-la.

Para que pudessem assumir a execução de tais procedimentos e métodos, os agentes de enfermagem foram submetidos a certos processos de preparação para o trabalho, empreendidos inicialmente pelos próprios psiquiatras. Tais processos de preparação, desenvolvidos através de mecanismos formais (nos estabelecimentos psiquiátricos do Rio de Janeiro e de Porto Alegre, por exemplo) ou informais (como ocorreu nas instituições psiquiátricas de São Paulo, Bahia e Minas Gerais), possibilitavam tanto a aquisição de conhecimentos sobre o doente e os meios de tratamento, quanto a assimilação das normas institucionais, que serviam como base para a atuação dos agentes de enfermagem.

Um dos motivos que levou os psiquiatras a assumirem a preparação de agentes de enfermagem para trabalhar em psiquiatria foi a pretensão de moralizar a força de trabalho empregada nas instituições psiquiátricas, pois segundo diziam (Teixeira Brandão apud Machado et al., 1978; Pacheco e Silva apud Cunha, 1986; Franco da Rocha, 1912; Godoy, 1952; Tourinho apud Jacobina, 1982), a maioria das pessoas que procuravam este tipo de ocupação era composta por indivíduos imorais, despreparados culturalmente, sem qualquer vocação para cuidar de doentes mentais e incapazes de se submeterem às normas disciplinares que orientavam o funcionamento do espaço asilar.

Outro motivo foi a necessidade que os psiquiatras da primeira metade do século XX (Porto-Carrero, 1932; Moreira, 1933; Pacheco e Silva, [193-]; Godoy, 1952) tinham de especializar a força de trabalho em enfermagem para cuidar dos doentes mentais segundo os preceitos científicos e humanitários defendidos pela medicina mental brasileira desde a segunda metade do século XIX.

Como originariamente tais princípios envolviam uma determinada concepção de organização do espaço e do funcionamento asilar - baseada numa distribuição dos agentes de enfermagem por diferentes posições na estrutura hierárquica da instituição, na qual o psiquiatra ocupava o topo e possuía o controle sobre os demais agentes e o ambiente hospitalar - os psiquiatras brasileiros optaram pela implementação de modelos de preparação de pessoal de enfermagem diferentes do adotado nas instituições hospitalares e de saúde pública a partir da década de 20, como por exemplo o Sistema Nightingale, pois este pressupunha o controle do processo de formação e de trabalho dos agentes de enfermagem pelas próprias enfermeiras.

Nos hospitais psiquiátricos brasileiros, a entrada das profissionais de enfermagem, formadas pelas escolas que adotaram o modelo Nightingale, só ocorreu no final dos anos 40, em meio a um processo marcado por conflitos estabelecidos entre elas e os demais agentes que atuavam no interior do espaço asilar, como já foi mencionado acima.

Além disso, a introdução das enfermeiras nos hospitais psiquiátricos brasileiros marca também o início da produção de um saber específico sobre o cuidado de enfermagem ao doente mental e o embrião do processo de formação de especialistas em enfermagem psiquiátrica.

Contudo, a presença destas enfermeiras nas instituições psiquiátricas não significou que os doentes passaram a ser cuidados por pessoas com maior grau de qualificação e de escolaridade. Na verdade, coube a estas profissionais assumir a administração da assistência e do pessoal de enfermagem, enquanto o cuidado direto aos pacientes continuou sendo realizado por uns poucos agentes de enfermagem que tinham recebido preparo formal para trabalhar em psiquiatria nas escolas anexas aos hospitais psiquiátricos e pelo pessoal de enfermagem que não possuía preparo formal específico, situação observada até hoje na maioria das instituições psiquiatricas do país (Humerez, 1988; Filizola, 1990; Fraga, 1993).

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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