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A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil Imprimir E-mail
Por Débora Isane Ratner Kirschbaum   
18 de outubro de 1996
Índice de Artigos
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil
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Os tratamentos psiquiátricos empregados até o início do século XX no Hospício São Pedro consistiam praticamente no isolamento do louco e na sua conseqüente exclusão social. Segundo Souza (1942) , em 1884, para o cargo de Diretor foi nomeado um clínico, o Dr. Carlos Lisboa, uma vez que não se exigia especialização para o exercício do cargo. Este adquiriu conhecimentos de psiquiatria durante sua formação médica, realizada no Rio de Janeiro. Em seus Relatórios ao Provedor da Santa Casa, Lisboa queixava-se de que, das prescrições dos alienistas franceses em relação as características que um hospício deveria possuir para tornar-se efetivamente um espaço terapêutico, só fora possível seguir a da separação dos doentes por sexo. Por isso, Lisboa apontava a necessidade de se reestruturar o ambiente hospitalar, de tal forma que se pudesse observar metodicamente os doentes e depois separá-los por classificação nosográfica; acompanhar a evolução do quadro de modo sistemático, instituindo uma ficha de anamnese, uma vez que não se dispunha de uma história de vida detalhada e nem mesmo informações sobre a moléstia atual, quando o doente ingressava no Hospital. Também, providenciou o aparelhamento do hospital para realizar pesquisas anatomopatológica, importando da Europa uma caixa de autópsias e reservando uma das salas para "estudos cadavéricos e microscópicos" (Souza, 1942). E, em 1884, criou um serviço ambulatorial de clínica geral e pequena cirurgia dirigido não só aos alienados, mas à população dos arredores do estabelecimento e uma escola para alfabetizar os alienados em tratamento.

No mesmo período, poucos princípios do Tratamento Moral foram adotados no Hospital. Como mostra ainda Décio Soares de Souza (1942), a despeito da resistência oferecida pelos administradores, Carlos Lisboa mantinha os doentes fora das celas, em liberdade durante parte do dia , sob sua observação direta. Empregava, então, terapêuticas químicas, como, por exemplo, a beladona, os brometos, o ópio e o cloral nos casos de agitação; a valeriana, a noz vômica, os tônicos, os ferruginosos e o iôdo, em casos de depressão; assim como os purgativos, os eméticos, o sulfato de quinino e a digitalis. Aconselhava também o uso de exercícios físicos e da hidroterapia ; entretanto as deficiências das instalações hidráulicas do Hospital, que só seriam sanadas nos anos 20, eram apontadas pelo alienista como um problema para a sua utilização adequada.

Portanto, tentando diferenciá-lo de um simples asilo, Lisboa procurou transformar o Hospício São Pedro num instrumento terapêutico, procurando organizá-lo sob princípios científicos preconizados pela psiquiatria mais avançada de sua época. Mas, apesar da semelhança existente entre a forma inicial de organização dos serviços do Hospital São Pedro e a dos estabelecimentos psiquiátricos do Rio de Janeiro até o início do século XX, vê-se que as principais técnicas que constituíam o Tratamento Moral não foram implementadas. Ou seja, o emprego da hidroterapia e da laborterapia, e a distribuição espacial dos indivíduos conforme o comportamento e evolução da doença não foram implementados, sendo o isolamento dos doentes em cela e as terapêuticas químicas as formas de tratamento mais empregadas. Sendo assim, apesar da criação de estruturas para investigações anatomopatológica, a precariedade das condições físicas do Hospital prejudicavam a realização de diagnósticos.

Neste contexto, a participação do pessoal de enfermagem na implementação do Tratamento Moral também representava um problema para alcançar os propósitos terapêuticos que um hospício deveria possuir aos olhos daquele alienista. Segundo Souza (1942), Lisboa apontava a deficiência de pessoal de enfermagem (que se limitava a dois enfermeiros para cinquenta e dois doentes homens e uma enfermeira para quarenta e duasa mulheres, de 1884 a 1889) e os baixos ordenados que recebiam, como um empecilho para a concretização daqueles propósitos, pronunciando-se em seus Relatórios da seguinte forma:

"A circunstância da mesquinhez de ordenados aos empregados inferiores é de alta importância; porque, em regra geral, os indivíduos que dispõem de certos requisitos, que os tornam aptos para o desempenho de tais empregos, não se querem sujeitar, de certo, aos sacrifícios, de que acima falei, para receber um vencimento que não lhe compensa o trabalho, não barateiam tanto o serviço. O resultado disto é que concorrem a tais lugares indivíduos que não se acham no caso de desempenhá-los de modo conveniente. Um mau enfermeiro, não é só um tropeço na marcha do serviço, é até um obstáculo, e bem grande, ao tratamento do doente; num hospício é então o que se pode chamar precisamente uma calamidade"( Lisboa apud Souza, 1942, p. 77)

Deste modo, vê-se que, também em Porto Alegre, a desqualificação do pessoal de enfermagem era vista como um entrave para a transformação do asilo num espaço terapêutico.

I.1.4. A concentração pelos alienistas do poder administrativo no interior das instituições psiquiátricas.

Na última década do século XIX, com as mudanças de natureza econômica e política ocorridas no Brasil, criou-se uma base material, política, para as tentativas de implantação definitiva do novo modelo terapêutico no interior do hospício e para as transformações nas práticas de enfermagem, que possibilitaram a institucionalização da mesma no país.

Desde 1889, o Governo Republicano tratou de dotar de maior eficiência as instituições psiquiátricas, na medida em que, a partir deste período, elas tornar-se-iam ainda mais importantes para assegurar a manutenção da ordem social.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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