Cândido Escola
Teses
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil | A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil |
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| Por Débora Isane Ratner Kirschbaum | |
| 18 de outubro de 1996 | |
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É interessante notar que os homens e as mulheres que trabalhavam no hospício vinham do mesmo grupo social que a maior parte dos indivíduos que a psiquiatria tomara como objeto, os homens livres. Por isso, o preconceito que recaía sobre aquele grupo social reproduzia-se também no interior da instituição, justificando o discurso dos alienistas e servindo de base às suas tentativas de normatizar também o comportamento dos agentes de enfermagem leigos que atuavam no hospício. Sendo assim, as características pessoais e o comportamento dos trabalhadores de enfermagem que atuavam naquele estabelecimento efetivamente constituíram uma preocupação permanente para os psiquiatras, não só naquele período como também nas décadas subsequentes. Segundo Maria Aparecida Gussi (1987), já em 1866, Teixeira Brandão, então médico do Hospício, via nas características morais e na falta de preparo específico do pessoal de enfermagem que lá atuava, um grave problema para a transformação do hospício num espaço efetivamente terapêutico. Segundo ele dizia: "(...) os doentes ficam entregues ao pessoal do serviço econômico e aos enfermeiros que não têm habilitação para notar as mudanças de sintomatologia , registrar os fatos dignos de observação, os fenômenos que poderiam esclarecer o juízo diagnóstico e mais particularidades assinaláveis." (Teixeira Brandão apud Gussi, 1987, p. 21) Neste sentido, para os alienistas a transformação do Hospício num instrumento de cura e a implementação do tratamento moral demandaria a transformação das práticas e dos agentes de enfermagem, a quem se atribuíra o cuidado direto do doente mental. Tratava-se de preparar a enfermagem para assistir aos alienados de forma sistemática e baseada em princípios médicos. O enfermeiro(a) [9] precisava ser treinado para observar o que havia de relevante para a realização do tratamento moral, entendendo a alienação como doença e não como instrumento para salvação da alma. Na medida em que passava-se de uma concepção de "doença" da alma para "doença" do corpo, isto implicava na presença de um trabalhador que se voltasse para o corpo. Neste sentido, já no último quartel do século XIX, dizia o diretor do hospício: "Quanto prosperaria o hospício se em vez de ser, como é, uma anomalia hospitalar, fosse uma casa de tratamento de alienados, onde o serviço sanitário emergisse com o brilho da nossa missão profissional e com a serenidade augusta da abnegação feminina? "( Teixeira Brandão apud Machado, 1978, p.468) Segundo Gussi (1987), a partir dos anos 80, a disputa entre os médicos e as religiosas acirrou-se, transformando-se num conflito político, que transpos os muros do Hospício, ao articular-se aos confrontos da natureza político-ideológica, particularmente a luta entre o poder do Estado e o poder da Igreja, entre a moral laica e a moral religiosa, que perpassavam a sociedade da época (Basbaum, 1982). A expulsão das irmãs de caridade daquele estabelecimento no ano de 1890 acarretou a falência administrativa da instituição. Com isso, criaram-se as condições para que a via formal de preparação do pessoal de enfermagem fosse adotada, através da criação da Escola Profissional de Enfermeiros e Enfermeiras do Hospício Nacional de Alienados, que serão analisadas no próximo tópico. Nos demais asilos brasileiros, criados na segunda metade do século XIX, a situação encontrada pelos seus primeiros alienistas não seria muito diferente da que se apresentava no Rio de Janeiro. Guardadas as especificidades locais, em todos eles, os alienistas empreenderam uma intensa movimentação no sentido de subordinar os demais agentes e concentrar em suas mãos a direção administrativa e técnica dos estabelecimentos, que, segundo eles, tornava-se uma condição imprescindível para que pudessem implementar o tratamento moral. Conforme relata Paulo Fraletti (1987), em São Paulo, o Asilo Provisório de Alienados foi inaugurado em 1852. A finalidade inicial do asilo paulista foi somente de abrigar e proteger os insanos que então vagavam pelas ruas sem nenhuma assistência, ou eram encarcerados em suas próprias casas ou nas prisões. No asilo, os alienados não eram submetidos a qualquer tratamento psiquiátrico e quando adoeciam fisicamente eram atendidos pelos cirurgiões da Santa Casa de Misericórdia. Conforme Cunha (1986), o cuidado aos doentes ficava entregue a empregados desqualificados, na maioria negros libertos e ex-presidiários, que recebiam remuneração baixíssima e constantemente ameaçavam abandonar coletivamente o trabalho. Da mesma forma que ocorrera no Hospício de Pedro II, dez anos após a inauguração, as instalações do asilo paulista já haviam se tornado insuficientes para abrigar o número de alienados que ali se encontravam. Estes foram transferidos para uma chácara na Várzea do Carmo, em 1862, que alguns anos depois apresentou novamente problemas de superlotação (Fraletti, 1987; Cunha, 1986). Segundo Urquiza (1991), nos primeiros quarenta anos, a direção administrativa do Asilo de São Paulo foi atribuída pelo presidente da província a pessoas leigas em medicina. Mas, embora não fossem médicos, em relatórios que enviavam ao governo da província, os diversos administradores criticaram as condições em que viviam os insanos naquele estabelecimento. Conforme diziam, o hospício fora abandonado pelas autoridades governamentais, que não lhe destinavam verbas, o que fazia do asilo um lugar de recolhimento dos insanos. Estes lá permaneciam sem receber tratamento apropriado, vigiados por guardas . 64,65
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| Última Atualização ( 23 de junho de 2008 ) |
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