Cândido Escola
Teses
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil | A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil |
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| Por Débora Isane Ratner Kirschbaum | |
| 18 de outubro de 1996 | |
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"Era um trabalho muito penoso aqui. O penoso era o horário, não é? Mas eu fazia um horário das 6 (horas da manhã) às 6 (da tarde). Doze horas todos os dias (ênfase). Não tinha esse negócio de fazer 12 horas e depois ganhar 36 (horas) não.Hoje parece que faz 12 horas e ganha 36, não é? Tinha só duas folgas por mes. mas dava gosto trabalhar. Os doentes ajudavam, tinha os pavilhões bem limpos." (Atend.Enf.J.S., p.4) Passa-se agora ao exame da organização espacial destes estabelecimentos psiquiátricos, a partir da qual tentava-se ordenar as "multiplicidades" existentes no interior do espaço asilar e criar condições materiais para que o trabalho de enfermagem pudesse ser realizado, segundo os objetivos que lhe era atribuído nas instituições psiquiátricas examinadas. IV. 2. A organização espacial que servia como base e como instrumento para as práticas de enfermagemAo longo do presente estudo já foi diversas vezes assinalada a importância da distribuição espacial como técnica disciplinar. A utilização de tal procedimento como um elemento constituinte do modelo terapêutico adotado pelos hospitais psiquiátricos no referido período é um dos aspectos depreendidos dos relatos. Verifica-se que os entrevistados recorrem constantemente às descrições da organização espacial dos hospitais com o intuito de explicar melhor o trabalho que desenvolviam, de ilustrar as dificuldades que enfrentavam, de falar da forma como se distribuíam nos estabelecimentos. Mas, além disso, as descrições sobre o modo de organização do espaço em que atuavam possibilita uma primeira aproximação das características do trabalho de enfermagem e mais especificamente das atividades que lhes eram destinadas. Neste sentido, segundo mencionam os entrevistados, o primeiro mecanismo de distribuição dos internos pelo espaço asilar baseava-se na divisão sexual. A separação entre homens e mulheres pelos diferentes pavilhões do Hospício Nacional de Alienados, nos anos 20, é retratada no depoimento de um dos entrevistado da seguinte forma: "Porque no Hospício era assim: na entrada, a ala esquerda toda era de mulheres. A ala direita era toda de homens, exceto a sessão de neurologia, que eram homens e mulheres juntos. Era um pavilhão que dava para a rua...saída para a rua...não sei se ainda existe este pavilhão lá.(...), era assim: o pavilhão de observação era um pavilhão só. Mas, a ala esquerda toda era de mulheres e a ala direita era de homens. Eu nunca entrei (na ala feminina), mas havia uns sujeitos que entravam. Tinham ordem de serviço...tinham que entrar. Os dois pavilhões do fundo, eram o pavilhão de Clínica e de fisiologia. Igual o nosso que era Clínica e Fisiologia" (Enfo.Prát. D.C., p.17). Portanto, à separação sexual dos internos correspondia uma divisão sexual dos agentes responsáveis pelo seu cuidado; o que fazia com que, no cotidiano da vida asilar, os pacientes só tivessem contato com enfermeiros do mesmo sexo nos hospitais psiquiátricos do Rio de Janeiro. Dos estabelecimentos do então Serviço de Assistência a Psicopatas do Distrito Federal, o Hospício Nacional era o único que continha homens e mulheres internados num mesmo espaço, embora distribuídos pelos pavilhões segundo uma divisão sexual. Em 1938, sob a alegação de que localizava-se em uma região que se tornara muito próxima do centro urbano, o prédio da Praia Vermelha foi desativado. No trecho reproduzido abaixo, além de referir-se à distribuição dos diversos pavilhões na planta física do Hospício Nacional, o entrevistado dá uma idéia de sua localização em relação ao mapa atual da cidade do Rio de Janeiro: "(...)do pavilhão de tuberculosos. Ele ficava exatamente onde fica hoje o Canecão. Era aquele cantão ali. Era arredondado assim (gesto), era ali o pavilhão de tuberculosos. Mas, aí, eu vim para outro, vim para o pavilhão da clínica - era o (pavilhão) a seguir. Mas, o administrador mandou que ele me apresentasse na sessão Pinel, sessão de doentes clínicos, doentes mentais. De lá foi que eu vim para a Colônia (Jacarepaguá). Havia sido inaugurado o (pavilhão) Franco da Rocha. Foi o segundo pavilhão inaugurado aqui dentro. O (pavilhão) Rodrigues Caldas era o inicial e o segundo foi o Franco da Rocha." (Enfo.Prát. D.C., p.3) Com a desativação do Hospício Nacional, muitos dos seus pacientes foram transferidos para a Colônia de Psicopatas Gustavo Riedel e para a Colônia Juliano Moreira, até então destinada exclusivamente aos internos do sexo masculino. Deste modo, o estabelecimento tornou-se misto e passou a contar também com mulheres na composição de seu pessoal de enfermagem. No entanto estas continuaram afastadas da assistência aos internos do sexo masculino, conforme se vê abaixo: "As mulheres começaram a trabalhar, aqui, com a inauguração do (pavilhão) Teixeira Brandão. Com a inauguração do Teixeira Brandão, foram feitos três pavilhões juntos: Teixeira Brandão, Bloco Médico e Ulisses Viana. Quer dizer, o Ulisses Viana foi o primeiro a ser inaugurado. Foi transferido todo o pavilhão Franco da Rocha para o Ulisses Viana, que era de homens. E depois fizeram um novo para mulher. Aí é que começou. Mas data certa, certa, eu não tenho não.(...) Mas foi assim que começou.Tanto assim, olha, ainda digo mais, posso dar uma idéia (da data de inauguração e de ingresso de mulheres na Colônia Juliano Moreira).Por que o Getúlio (Vargas)ainda era Presidente da República. Era o Getúlio. Ele veio inaugurar o Franco da Rocha, como o Ulisses Viana. O A. (filho dele) não se lembra, ele era muito pequeno, de colo. Quer dizer que deve ter uns cinquenta e poucos anos. O pessoal estava todo assim (enfileirado), ele passou naquele corredor, ele vinha... B. (a esposa) estava com o A. pequeninhinho, no colo. Ele (Getúlio) passou, pegou no queixo dele, assim ...(Risos).E quando ele chegou lá dentro, eu fui lá para dentro (...)". (Enfo.Prát.D.D, p.11) 64,65
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| Última Atualização ( 23 de junho de 2008 ) |
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