Cândido Escola
Teses
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil | A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil |
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| Por Débora Isane Ratner Kirschbaum | |
| 18 de outubro de 1996 | |
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Para Machado et al. (1978), estes quatro princípios em que se fundamentava a constituição do hospício como instrumento terapêutico médico compunham um "modelo de gestão asilar"[7], na medida em que, em seu conjunto, possibilitavam normatizar a organização da vida no hospício. Como se pode deduzir, pelo que foi até agora exposto, as práticas e os agentes de enfermagem possuíam uma importância fundamental na implementação daqueles princípios, na medida em que eram eles quem, na prática, se ocupavam da assistência direta ao doente e da administração interna do hospício. Segundo Machado et al. (1978), para aumentar a eficácia daqueles princípios, a persuasão, a repressão, o controle, a individualização eram táticas propostas pelos psiquiatras como meio de submeter a vontade do doente. Os métodos mais utilizados no Hospício de D. Pedro II, cujo uso era inclusive regulamentado no Estatuto da instituição, eram: a privação de visitas, passeios e recreios; a diminuição de alimentos; a reclusão solitária por até dois dias; o colete de força e os banhos de emborcação. Conforme aquele Estatuto, todos eles só deveriam ser aplicados mediante prescrição ou autorização médica. O poder de impingi-los era delegado ao primeiro enfermeiro, desde que na ausência do médico e que este fosse informado sobre os motivos que justificaram a necessidade da sua utilização . Se, por um lado, o acima exposto caracterizava o dever ser da instituição, por outro lado, na prática, o funcionamento interno do asilo não coadunaria com os preceitos científicos recomendados pela psiquiatria européia da época, como denunciavam os sucessivos Diretores do hospício em seus relatórios. Para eles, tal situação decorria de dois problemas: o primeiro, a falta de uma legislação que regulamentasse a assistência aos alienados no país. Os alienistas queixavam-se de que não conseguiam controlar nem mesmo o internamento dos doentes, já que muitos eram internados sem sua autorização ou eram encaminhados às prisões, e outros não eram nem mesmo alienados, o que esvaziava as funções do hospício e contradizia o objetivo para o qual fora criado. Além disso, o ingresso de um número cada vez maior de doentes que não paravam de chegar aos hospitais acarretava sucessivas reformas na estrutura arquitetônica original, inviabilizando as pretensões dos alienistas de distribuir e classificar os doentes de acordo com a patologia que apresentavam e de aplicar o tratamento mais adaptado a cada doença [8] . Conforme Machado et al. (1978), o segundo problema era a posição secundária a que estavam relegados os médicos na organização administrativa do hospício e as características que possuía o pessoal de enfermagem que neles atuava. Isto porque, desde sua criação, o Hospício de D. Pedro II, foi mantido sob a administração das religiosas da Irmandade de São Vicente de Paula, oriundas da Santa Casa, que possuíam o controle desde o nível financeiro até a organização do espaço e distribuição dos doentes no mesmo, cabendo aos médicos um papel secundário nas decisões relacionadas à forma de organização do hospício. Segundo os alienistas argumentavam, tal situação inviabilizava a implementação do tratamento médico, pois o hospício mantinha-se simplesmente como um espaço de segregação e de exercício da violência, não proporcionando qualquer possibilidade de cura aos doentes. Nos anos 80, as posições assumidas pelas irmãs na administração do estabelecimento e no trato diário com os pacientes passaram a ser alvo de duras críticas por parte dos psiquiatras, conforme mostram passagens da obra de Teixeira Brandão: "Entregue às irmãs de São Vicente de Paula (o hospício) assemelhava-se mais a um convento do que a um hospital. De manhã e a noite, os cânticos religiosos confundiam-se com o alarido dos loucos entregues a enfermeiros boçais, enquanto as irmãs de caridade cumpriam os preceitos impostos nos estatutos da Congregação." (Teixeira Brandão apud Machado et al., 1978, p.466) Fica claro que os médicos identificavam uma incompatibilidade entre a forma de assistência de enfermagem existente no hospício e a viabilização do modelo de gestão proposto pela psiquiatria. Explicitava-se, então, o conflito que se instalara no Hospício de D. Pedro II, a partir do final do século passado, entre dois saberes: o da psiquiatria - laico, fundado em princípios supostamente científicos, baseados numa racionalidade própria, a da medicina - e o da enfermagem - empírico, religioso, cuidado concebido como atividade feminina, de dimensões filantrópicas e caritativas Afora isso, os enfermeiros eram apontados como responsáveis pela violência que marcava as práticas no interior do hospício, apesar destas terem sido propostas e regulamentadas pelos próprios alienistas. Os enfermeiros, diziam os alienistas, por serem recrutados entre pessoas com péssimas condições intelectuais, com defeitos de caráter, não possuíam condições mínimas para viabilizar princípios pedagógicos que eram a base do Tratamento Moral. Para se ter um exemplo do que pensavam os médicos sobre os agentes de enfermagem existentes naquela instituição, reproduz-se, a seguir, um trecho do Relatório do Diretor do Hospício, referente ao ano de 1855: "No serviço dos homens há doze enfermeiros debaixo da imediata inspeção das irmãs de caridade. Geralmente estes empregados servem mal e nenhuma confiança merecem. É necessário a maior vigilância sobre eles, punindo-os à miúdo, despedí-los, etc. Não é isso porém de admirar: todo o mundo conhece a classe dos homens que entre nós se presta a tal gênro de serviço mediante a quantia de vinte quatro mil réis mensais." (Barbosa apud Machado et al., 1978, p.437) 64,65
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| Última Atualização ( 23 de junho de 2008 ) |
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