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A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil Imprimir E-mail
Por Débora Isane Ratner Kirschbaum   
18 de outubro de 1996
Índice de Artigos
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil
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Assim, não se pode descartar também o uso do quarto-forte como um meio de proteção dos próprios agentes de enfermagem diante das manifestaçõs de agressividade dos internos. Como eles mesmos sugerem em seus depoimentos, frente às adversas condições de trabalho que encontravam para realizar sua prática e a inexistência de meios químicos de contenção, eles tratavam de defender-se como podiam e como sabiam.

Daí, provavelmente, a resistência à extinção das mesmas, situação esta que pode ser observada até o início da década de 90, como mostra uma enfermeira entrevistada :

"Nós temos aqui ainda duas celas. Eu estou na frente de acabar com as celas, porque eu não aceito cela de jeito nenhum, não aceito. Porque ninguém nasceu numa cela, não é? O Hospital ainda tem cela. E está tendo uma resistência, aí no Hospital. As pessoas acham ainda que tem que ter cela e... A única coisa que eu acho que a gente faz de vez em quando é uma contenção para o bem do paciente." (Enfa. V.B., p.12 )

Entre os entrevistados do Hospital-Colônia de Barbacena a ênfase na utilização das celas explicita o caráter coercitivo da atuação da enfermagem neste estabelecimento, mas isso não significa que o mesmo não tenha acontecido nos demais.

Segundo conta um dos guardas do Hospital do Juqueri, também lá se fazia uso das celas e das camisas de força como meio de contenção:

"Tinha quartos-fortes que agora aboliram, não é? Acho que não se usa mais. Mas antigamente, só tinha quarto-forte, não é? Não tinha outros tratamentos. Mas o quarto-forte dos hospitais tinha que ser todo forrado, com espuma, não é, com borracha. Os nossos aí não tinham não. Era um quarto comum assim, bem forte, o doente ficava lá dentro. Tinha uns que arrebentavam, de tanto que batiam nas paredes. A gente tinha que ir lá com ele, pôr camisa de força. Camisa de força, manguito. Amarrava o doente, com as mãos dele para trás, não é ? Mas os doentes daquela época eram doentes fortes, agressivos. Agrediam qualquer um; médico, tudo...Às vezes, quando entrava na sala do médico, tinha que entrar três, quatro funcionários junto." (Atend.Enf. J.S., p.4)

Também no Hospital do Juqueri, no Hospital Juliano Moreira e no Hospital São Pedro as celas e a camisa de força foram empregadas para dar conta da carência de outros recursos terapêuticos ou da insuficiência numérica de pessoal de enfermagem, como exemplifica o depoimento de um dos enfermeiros do Hospital São Pedro:

"Em 1939, (ingressei) como atendente. Para minha surpresa, quando entrei no pavilhão de doentes, fiquei apavorado. Fumava, então, os doentes me tiraram todo o cigarro. De medo dos pacientes (ênfase), veja bem. O que é que se fazia? Simplesmente, é... dava-se alimentação aos doentes, dígamos assim, porque remédio não existia então. Os doentes eram contidos mecanicamente na cama. E aqueles..."

E- A contenção mecânica era feita da mesma forma que se faz atualmente?

"Exato. Mas só que naquele tempo havia mais, não havia a técnica de hoje. Existia naquele tempo, Débora, assim: a contenção mecânica era como uma faixa, como se enfaixasse uma pessoa, entende? Então o indivíduo ficava completamente imóvel, não podia se mexer, não é? E aí se deixava aquela pessoa oito horas, oito horas nós trabalhávamos naquele tempo. Antes de passar de um turno para outro, então a gente desfazia. Dependendo da agressividade do doente também. Quando o doente era muito forte, robusto, tinha força - muitas vezes era superior a da gente - se colocava num quarto. Era um quarto, tipo uma cela, assim (gesticula, mostrando que a cela tinha aproximadamente três metros quadrados). Existia uma portinhola para passar um prato de comida. Mas não tinha patente (vaso sanitário), não tinha nada. Todas as necessidades do paciente eram feitas junto ao leito dele. E também não tinha cama; era colchão só no chão. Era que nem um irracional, um negócio assim, brutal mesmo. É. Eu senti muito, sofri muito. Porque, então, a gente não... a gente via aquele ser humano ser tratado como um animal. Nem um bicho eu acho que a gente trata assim. (...) Então, (o enfermeiro) era um camarada que estava ali para dar banho, para dar alimentação do paciente, trocar a roupa dele" (Enfo.J.C., p. 37-8 )

Neste sentido, o depoimento acima expõe uma versão diferente das apresentadas pelos médicos do Hospital São Pedro, no primeiro capítulo, sobre o estado em que se encontravam os tratamentos psiquiátricos na década de 40, mostrando que, embora algumas terapias de choque já fossem empregadas há dez anos naquele estabelecimento, o uso de camisas de força e celas fortes ainda era um recurso sistematicamente empregado pela enfermagem para conter a agressividade dos pacientes.

Dizendo que seu ingresso na Escola de Enfermagem instrumentalizou-o para compreender melhor a condição do paciente psiquiátrico, este entrevistado conclui o trecho acima, ilustrando de que modo os pacientes eram mantidos nas celas e como o pessoal de enfermagem assistia às pessoas mantidas neste tipo de contenção :

"Vou te falar uma outra parte de quando eu ingressei em 1939. Tinha um doente que se chamava Emílio Grande. Sem mentira, Débora, acho que tinha 1,90 m. ou 2,0 m. de altura. Mas era grande (ênfase), era um monstro. Eu não sabia, tinha 20 anos, era um guri. E um enfermeiro - dentre aqueles enfermeiros práticos, entende, ficava com o nome de enfermeiro, porque também não tinha nenhum, eu acho - disse assim para mim : ` Vamos fazer, vamos limpar a cela do Emílio Grande '. E o que ele fez? Ele abriu. Era, sem mentira nenhuma, a chave para abrir a porta do quarto era deste tamanho assim (gesto para mostrar que a chave tinha aproximadamente 20 cm.) Faz me lembrar a chave de São Pedro, igual àquela que aparece nos retratos, não é? Ele abriu, mas era uma enorme de uma chave. Ele abriu aquela porta, empurrou, abriu a fechadura, empurrou a porta assim (gesto)..., então aparece no meio daquelas palhas - não era colchão não, era só palha -. Levanta aquela monstruosidade de gente. Tu sabes que eu fiquei parado de medo. Me deu um tremor nas pernas de ver aquela monstruosidade sair de cima daquelas palhas. E o enfermeiro, que era antigo, saiu correndo..."

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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