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A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil Imprimir E-mail
Por Débora Isane Ratner Kirschbaum   
18 de outubro de 1996
Índice de Artigos
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil
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No Hospital Juliano Moreira, a organização do trabalho também expressava uma divisão social e técnica do trabalho entre os diferentes agentes. Embora não tenham sido localizados os regulamentos referentes ao período em estudo, o exame de outras fontes primárias (Bahia, Diretoria de Saúde Pública, Hospício São João de Deus, Folha de Pagamento dos Empregados, 1921-1926) possibilitou inferir de que modo os diferentes agentes deveriam distribuir-se pela hierarquia institucional nos anos 20. Além da divisão social do trabalho entre os médicos e o pessoal de enfermagem, a folha de pagamentos indica, pelo menos formalmente, a existência de uma divisão técnica do trabalho entre os últimos, na qual caberia ao inspetor e à inspetora (subordinados ao administrador e este ao diretor do hospital) o controle dos pavilhões e da disciplina entre os demais agentes de enfermagem. Estes, distribuídos nas funções de enfermeiros, enfermeiras, guardas e serventes (de ambos os sexos) encarregar-se-iam do cuidado direto de enfermagem no interior de cada pavilhão. Além disso, a partir de 1926, os enfermeiros(as) foram subdivididos conforme uma ordenação hierárquica em primeiro(a), segundo(a) e terceiro(a) enfermeiro(a). Observa-se no Registro de Títulos e Portarias de Nomeações-1912/1923 (Bahia, Diretoria de Saúde Pública, Asilo São João de Deus) que, nos anos 20, tanto a ocupação quanto a promoção ao cargo imediatamente superior na hierarquia institicional ocorria por substituição do ocupante anterior da vaga, por motivo de exoneração, pedido de demissão ou por concessão de licença para tratamento de saúde.

Segundo relatou uma das entrevistadas, até a chegada das enfermeiras do Serviço Nacional de Doenças Mentais no final dos anos 40, a coordenação do pessoal de enfermagem no Juliano Moreira era atribuída às visitadoras sanitárias:

"Quem chefiava a enfermagem era uma senhora que tinha o curso de saúde pública. Porque aqui tinha uma Escola de Enfermagem de Saúde Pública. Então era ela. No almoxarifado era a irmã. E ela era quem fazia a direção e que determinava, que fazia todo o serviço de enfermagem do hospital. Todo. Ela foi formada pela saúde pública aqui . Mas, naquela época, não tinha as da universidade. Então, era a dona Albertina que tomava conta. Agora, tinha o chefe da clínica que orientava os médicos, tomava conta, orientava os internos. e tinha a direção. O que eu posso dizer à senhora é que tinha também o administrador do hospital. Ele é que tomava conta da roupa, da comida, de materiais quebrados. Ele é que ajudava na direção." (Vis.San. A.R.F., p.11)

Portanto, a forma assumida pela organização do trabalho nos hospitais de Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Barbacena corresponde a um processo de aperfeiçoamento de mecanismos disciplinares que procuravam estabelecer a posição de cada categoria profissional e os limites de sua atuação no interior do espaço asilar através de instrumentos legais. Estes pareciam garantir tanto o ordenamento do espaço hospitalar quanto o disciplinamento de seus agentes, o que era vislumbrado como uma condição fundamental para a consolidação do projeto de transformação do hospital em um espaço terapêutico.

Entretanto, apesar desta formalização detalhada, através dos instrumentos legais, nem tudo ocorria conforme previsto nos regulamentos. Nota-se, a partir dos depoimentos a existência de inúmeras situações de conflito entre os diferentes agentes no interior da instituição. As versões apresentadas pelos informantes levam a supor que, nos cinco estabelecimentos, o rigor que caracterizava a organização administrativa a nível formal, não correspondia ao modo como na prática desenvolvia-se o exercício efetivo do poder entre o pessoal de enfermagem no interior das instituições.

Algumas formas de controle adotadas para subordinar os que se encontravam nos níveis inferiores da hierarquia é evidenciada nos depoimentos dos entrevistados que trabalhavam na Colônia Juliano Moreira e no Hospital do Juqueri.

Pelo que se depreende dos depoimentos, auxiliados pelos administradores e pelos inspetores, os diretores tinham um controle total - ou, pelo menos, tentavam tê-lo - do que ocorria no interior daqueles hospitais, tomando ciência de tudo o que acontecia nos pavilhões e centralizando em suas mãos as decisões sobre os diferentes aspectos que permeavam a vida asilar, como exemplifica um dos entrevistados:

"E digo e repito. Com este diretor, agora, o doente da Colônia vai ser bem cuidado, muito beneficiado, porque eu sou remanescente de uma safra de diretores bons desta casa. Eu cito até um, por exemplo, que era um abnegado, Dr. Carlos Sampaio Corrêa, (...). Era um homem que muitas vezes trazia medicamento de fora, quando a Colônia não tinha. Porque o pronto-pagamento era mínimo para fazer tudo para a Colônia. E um ponto que eu esqueci de falar: na minha época, o administrador e o diretor,(...), eles corriam a Colônia toda pela manhã, para ver o café da manhã que os doentes recebiam. Isto eles faziam questão de presenciar." (Aux.Enf.A.B., p.21) (grifo nosso)

Outro informante conta que no Hospital do Juqueri:

"(...) era uma organização bem feita. O diretor nosso, que tinha aí, era um diretor que...Eu sou do tempo do Dr. Júlio de Andrade e Silva. Homem altão...até os médicos tinham medo dele. Quando chamava: `O diretor está chamando um funcionário', `O que será que ele quer?' Tinham medo." (Atend.Enf.J.S., p.6)

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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