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A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil Imprimir E-mail
Por Débora Isane Ratner Kirschbaum   
18 de outubro de 1996
Índice de Artigos
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil
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Antes que isso ocorresse, a loucura não era considerada como doença, mas como "uma forma de erro ou de ilusão" (Foucault, 1981, p.120). Também não existiam instituições destinadas especificamente a assistir aos loucos, nem estes eram sistematicamente internados. No final do século XVIII, assim como os doentes pobres, os órfãos e os velhos, os insanos eram acolhidos nas Santas Casas de Misericórdia, mantidas por Congregações religiosas, que viam na assistência aos insanos um modo de salvar-lhes a alma. Ou então, eram recolhidos às prisões, quando seu comportamento agressivo fosse vislumbrado como uma ameaça à ordem social. E os insanos que pertenciam às famílias abastadas eram mantidos na própria casa (Resende, 1987; Machado, 1978; Cunha, 1986).

A situação descrita acima não se deu exclusivamente no Brasil. Segundo Foucault (1978), a exclusão social do louco e sua reclusão em instituições de internamento, ao lado de outras pessoas, internadas por serem pobres, velhos, órfãos, desempregados ou criminosos, ocorreu também na Europa no período compreendido entre os séculos XVII e XVIII, em meio a uma movimentação que ele denominou como "A Grande Internação".

Como explica Foucault (1978), foi apenas no final do século XVIII que se estabeleceu, sob condições históricas bem específicas, a percepção de que a loucura tinha uma especificidade que a diferenciava de outras formas de existência (como a mendicância e a vadiagem, por exemplo) e de que os loucos deveriam ser separados dos outros grupos recolhidos às casas de internamento.

Embora assinale a semelhança existente entre o tratamento dispensado à loucura e ao louco na Europa dos séculos XVI, XII e XVIII e a assistência prestada aos mesmos nas Santas Casas de Misericórdia e prisões brasileiras até a segunda metade do século XIX, Resende (1987) ressalta que o contexto histórico que serviu como pano de fundo para a criação das primeiras instituições destinadas especificamente à reclusão e ao tratamento dos loucos no Brasil possui especificidades que o diferenciam do europeu.

É importante analisar aqui em que consistiram estas especificidades indicadas por Resende (1987), por que elas permitem compreender as funções que historicamente foram atribuídas às instituições psiquiátricas brasileiras e as características de certo segmento da população brasileira, no qual, a partir do século XIX os psiquiatras buscariam sua clientela e recrutariam a força de trabalho em enfermagem, sobretudo do sexo masculino, que atuaria nas instituições psiquiátricas.

Para Resende (1987), apesar de haver semelhanças entre as estratégias de assistência ao doente mental adotadas no Brasil do século XVIII e na Europa do século XVI, a emergência do louco e da loucura como problema social, bem como a criação de instituições destinadas a controlá-lo e eventualmente tratá-lo possuem, no Brasil, certas especificidades, relacionadas com a forma de organização econômica e social do país no período colonial. Como ele salienta, a partir do século XVI, os países europeus passaram por importantes transformações de natureza econômica, política, social e moral relacionadas à formação e à consolidação do modo de produção capitalista, que colocaram em pauta uma redefinição conceitual da loucura, a partir do final do século XVII. Lá, a evasão do campesinato do campo para a cidade e o processo de substituição das manufaturas pela industrialização, inerente ao capitalismo do final do século XVIII e do século XIX, e que se iniciara quatrocentos anos antes, acarretou a formação de um amplo segmento de indivíduos excluídos do processo econômico, por, dentre outras coisas, não se adaptarem às características exigidas pelo processo de produção industrial. E foi justamente para segregar e controlar os problemas trazidos por este contingente de desempregados, criminosos, doentes de toda ordem e insanos que foram criadas as instituições de internamento na França, Inglaterra e Alemanha, de meados do século XVII até o final do século XVIII, compondo a movimentação descrita por Michel Foucault (1978).

Resende (1987), enfatiza que ao contrário do que acontecera na Europa, onde a loucura e, conseqüentemente, o louco passaram a constituir um problema num contexto de formação do capitalismo, aqui no Brasil, a loucura entra em cena, como ameaça à ordem social, nos fins do século XVIII, "em plena vigência da sociedade rural pré-capitalista" (p.30).

Tratava-se então de uma sociedade basicamente formada por latifundiários escravistas e comerciantes, uma maioria de escravos e uma minoria de homens livres, numa economia colonial fundamentada na produção de produtos agrícolas coloniais e de metais preciosos, sujeita ao monopólio do comércio metropolitano, garantidas através do emprego do trabalho escravo (Mello, 1988).

Conforme Resende (1987), por tratar-se de uma economia baseada no trabalho escravo, o espaço reservado ao trabalho livre restringiu-se tanto no campo, quanto nas cidades. Nestas, numericamente reduzidas e escassamente povoadas, poucas ocupações restavam aos homens livres, numa época em que mesmo as atividades artesanais e comerciais eram incipientes, sendo a produção totalmente dirigida para suprir as necessidades das fazendas. Além disso, entre os homens livres era dominante a rejeição ao trabalho manual, associado à escravidão e considerado uma atividade indigna e pejorativa. Por falta de outras alternativas, muitos deles preferiam entregar-se à vadiagem e à criminalidade do que submeterem-se à uma condição servil [1]. Neste contexto, gerou-se um contingente de indivíduos desocupados, inadaptados à ordem social dominante, que cresceu numericamente no período compreendido entre o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX, e acentuou a desorganização da vida colonial, principalmente nas cidades.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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