Cândido Escola
Teses
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil | A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil |
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| Por Débora Isane Ratner Kirschbaum | |
| 18 de outubro de 1996 | |
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É sob este enfoque que serão examinadas a seguir as formas assumidas por estes processos de formação, as semelhanças, bem como as diferenças existentes entre eles, decorrentes das especificidades locais. III.1.1. A Escola Profissional de Enfermeiros e Enfermeiras do Departamento de Assistência aos Psicopatas e a Escola de Enfermeiras Alfredo Pinto.Não há dúvida de que a reestruturação da Escola Profissional de Enfermeiros e Enfermeiras da Assistência aos Alienados do Distrito Federal foi uma resposta à ineficiência apresentada por este estabelecimento de ensino, enquanto mecanismo de formação disciplinar da enfermagem para o hospício e as colônias do Rio de Janeiro, até a década de vinte. Segundo Moreira (1990), a despeito da reinauguração promovida por Juliano Moreira em 1905, até o início dos anos 20, o funcionamento da escola foi bastante precário, devido às dificuldades de toda ordem: não possuía um regimento interno, nem dotação orçamentária própria, nem sede fixa, nem diretor próprio, já que o cargo era ocupado pelo Diretor do Hospício Nacional de Alienados. A falta de espaço físico inviabilizava a separação sexual entre os alunos ( já que tratava-se de uma escola mista), obrigando os dirigentes a desenvolver as atividades da turma feminina no período da manhã e as da turma masculina no período noturno, conforme registrado na ata da congregação da Escola. Além disso, suas atividades sofriam freqüentes interrupções, o que provavelmente explica a inexistência de registro de diplomas anteriores a 1921, conforme a mesma autora (Moreira, 1990). Mas, se por um lado as reformulações previstas no primeiro regimento interno da escola permitiram aos dirigentes efetivar a separação dos alunos de acordo com seu sexo e reorganizar o processo de qualificação de força de trabalho para atuar no hospício e nas colônias recém inauguradas, dotando-lhe maior eficiência, por outro lado não foram suficientes para garantir a formação dos agentes de enfermagem necessários para a ampliação dos serviços psiquiátricos que possibilitariam a implementação dos programas de higiene mental. Deste modo, em 1923, ao inaugurar o ambulatório de profilaxia das doenças mentais e o primeiro serviço aberto para psicopatas na Colônia de Psicopatas do Engenho de Dentro, Gustavo Riedel criou também o curso de monitoras de higiene mental. Quatro anos depois, este foi incorporado ao currículo da escola de enfermagem, transformando-se no Curso de Visitadora Social, através do decreto 17.805 de 23 de maio de 1927, que reorganizou a Assistência aos Psicopatas. Nele, estabeleceu-se que o curso de enfermagem teria duração de dois anos, acrescidos de um terceiro, mediante o qual as diplomadas obteriam o título de visitadora social (Moreira, 1990). Pelo exposto acima, nota-se que, além de preparar enfermeiros (as) para preencher os vazios de mão-de-obra qualificada para os hospitais civis e militares existentes na época, finalidade prevista em seu decreto de criação [1] , a partir dos anos 20, a preparação do pessoal de enfermagem esteve realmente dirigida à formação de quadros para serem incorporados à assistência ao doente mental, no interior dos estabelecimentos da Assistência aos Psicopatas. Neste sentido, verifica-se que as transformações operadas na forma de organização dos serviços e da assistência ao doente mental produziam modificações imediatas no modo de organização do ensino de enfermagem, acarretando o surgimento de novas especializações e a inclusão de conteúdos em seu currículo correspondentes a introdução de inovações científicas e tecnológicas introduzidas pelos psiquiatras naqueles serviços no período de 20 a 40. Nos primeiros anos da década de vinte, a apreensão dos princípios do tratamento moral e da concepção de loucura como doença mental constituíam o próprio cerne do processo de formação, o conteúdo em si do ensino de enfermagem. Sendo assim, o objeto do ensino era a transmissão de um saber sobre o cuidado ao doente mental e este correspondia a um saber sobre a doença, o doente e a forma de tratá-lo, para que se pudesse conhecê-lo, enquadrá-lo e intervir sobre seu comportamento. Desenvolvido no interior do próprio processo de trabalho, sob a orientação direta do psiquiatra e do pessoal de enfermagem que atuava na colônia, este ensino consistia sobretudo no aprendizado da abordagem e do manejo do paciente psiquiátrico pela enfermagem, conforme mostra o depoimento reproduzido a seguir: "Só ensinavam que a gente tivesse paciência, que visse eles como doentes, como criança. Tivesse muita paciência e, mas ao mesmo tempo energia, para eles não tomarem liberdade. Porque, se elas tomassem liberdade com você, era o mesmo que filha...Elas te batiam como se fosse uma filha.(...)Então, a gente tinha que estar enérgica com elas, para elas não tomarem liberdade com você. Eles ensinavam...ensinavam que quando a gente percebesse que elas estavam ficando alteradas era para levar para uma sala e cuidar delas bem. Não podia bater. A gente podia apanhar, mas bater, não (ênfase)(...) E o Dr.Gustavo e a D.Albertina também. Não consentiam nada disso. Não se podia fazer nada. A gente podia apanhar, mas nunca bater." (Enfa. M.P., p.9) A concepção de doença e do doente mental que emerge nos depoimentos, revela a visão medicalizada da loucura, - ou seja, do louco como doente mental e, portanto, objeto de intervenção médica -, que passou a predominar no discurso psiquiátrico brasileiro desde a segunda metade do século XIX, sendo incorporada ao discurso e às práticas de enfermagem pelos alunos da escola. A percepção do comportamento do paciente como manifestação de doença, o entendimento de que ele deveria ser visto como uma criança, ensinados às enfermeiras nos anos 20 e expressos no trecho acima, correspondem a uma analogia entre o louco e a criança estabelecida pelos alienistas franceses no final do século XVIII (Foucault, 1978). 64,65
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| Última Atualização ( 23 de junho de 2008 ) |
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