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A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil Imprimir E-mail
Por Débora Isane Ratner Kirschbaum   
18 de outubro de 1996
Índice de Artigos
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil
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Um destes problemas é a compreensão do objeto da história oral em relação ao objeto da história positivista. Para Alberti (1989, p.2), enquanto a última dirige seu olhar para "o passado tal como efetivamente ocorreu", a história oral desloca seu olhar do objeto documentado para as versões do passado.

Neste sentido, o objeto da história oral é a reconstituição de experiências, acontecimentos, conjunturas e práticas sociais a partir da versão do passado que possui o entrevistado, já que este está sujeito às transformações por que passa a sociedade no processo dinâmico de produção das condições materiais de existência e de seu desenvolvimento.

Todavia, para que esta reconstituição torne-se relevante é preciso que não se limite o resgate da memória ao recolhimento e registro de experiências particulares, pois deste modo tais versões pouco contribuíriam para fazer avançar o conhecimento histórico das Ciências Humanas e áreas afins sobre determinado período ou determinadas práticas sociais. Segundo Alberti, para que a história oral amplie as possibilidades de conhecimento de determinados temas é preciso que as versões individuais sejam comparadas umas com outras e que se procure apreender as relações existentes entre estas versões e o contexto histórico em que foram produzidas.

"Trata-se de ampliar o conhecimento sobre acontecimentos e conjunturas do passado através do estudo aprofundado de experiências e versões particulares; de procurar compreender a sociedade através do indivíduo que nela viveu; de estabelecer as relações entre o geral e o particular, através da análise comparativa de diferentes versões e testemunhos." (Alberti, 1989, p.3)

Para a história oral, as possíveis "distorções" ou falhas de memória emergentes no discurso do entrevistado, ao contrário de representarem um elemento negativo, assumem um significado fundamental para a investigação, na medida em que nos fazem perguntar "porque razão o entrevistado concebe o passado de uma forma e não de outra e porque razão e em que medida sua concepção difere ou não das de outros depoentes." (Alberti, 1989, p.3)

Deste modo, junto com as versões dos entrevistados a análise documental também é imprescindível para a reconstrução histórica de determinado tema, por pelo menos dois motivos. Em primeiro lugar porque permite uma aproximação do objeto de estudo, que se faz necessária para a delimitação de tema e para a identificação dos informantes privilegiados que constituirão os sujeitos da investigação. Em segundo lugar, por complementar as visões e versões dos entrevistados, fornecendo uma compreensão do contexto e do momento histórico em que foram produzidas, assim como por permitir a confrontação de dados que apontam lacunas ou omissões no discurso do entrevistado, as quais, no momento da análise e discussão dos dados, constituir-se-ão em objetos de investigação.

Para reconstituir a trajetória de emergência dos agentes e das práticas de enfermagem, além da preparação a que este pessoal foi submetido no campo da assistência psiquiátrica no Brasil, no período de 1920 a 1950, optou-se por empregar como método a história oral. Tal escolha deveu-se às razões que se expõe a seguir. A primeira, pela impossibilidade de reconstituir a história de organização e institucionalização do saber e das práticas de enfermagem em psiquiatria no referido período, apenas através dos documentos escritos de que se dispunha a partir da revisão bibliográfica e da pesquisa de fontes primárias, constatada quando da realização da análise documental preliminar para a elaboração do projeto de pesquisa. Esta, entretanto, possibilitou delimitar o tema da pesquisa e identificar os aspectos que necessitavam ser melhor esclarecidos no que dizia respeito ao cotidiano de realização das práticas de enfermagem e sua relação com a forma de organização assumida pelas instituições psiquiátricas no início do século, no país, cuja consolidação esteve articulada ao projeto de criação da enfermagem vocacional. Apontou , também , para a necessidade de empregar uma metodologia que possibilitasse a produção de documentos que servissem como fontes primárias para a realização da investigação, o que seria feito através da reconstituição de diferentes versões, produzidas pelos sujeitos que participaram do processo de constituição e desenvolvimento da categoria e das práticas profissionais em questão. A segunda razão, que está relacionada à produção das fontes primárias, foi a possibilidade de localizar e entrevistar sujeitos, informantes privilegiados, que pudessem ceder seus depoimentos para que, através deles, se reconstruísse versões sobre o processo de constituição das práticas de enfermagem. Embora não se dispusesse da identificação da totalidade dos entrevistados, o fato de tratar-se de um período histórico recente permitia contar com um número significativo de informantes, cujas narrativas possibilitariam alcançar os objetivos da pesquisa. A terceira razão, tão importante quanto as duas primeiras e a elas relacionadas, era a oportunidade de resgatar a história de um segmento da categoria profissional de enfermagem que, caso não fosse registrada através de depoimentos, seria perdida pela falta de registros escritos. No Brasil existem apenas duas pesquisas que procuram resgatar a memória das práticas e do ensino de enfermagem psiquiátrica no país, utilizando-se da história oral como metodologia de pesquisa. Trata-se dos trabalhos de Ogata (1992) e Miranda (1990). No entanto, ambas tomam como objeto de pesquisa as práticas de enfermagem psiquiátrica desenvolvidas por enfermeiras que foram submetidas aos processos de formação desenvolvidos pelas escolas ligadas às instituições de ensino superior. Além disso, Miranda (1990), toma como objeto os agentes e as práticas de enfermagem e de ensino de enfermagem psiquiátrica desenvolvidas a partir de 1949, nos estabelecimentos psiquiátricos do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia, enquanto Ogata (1992) delimita como sujeitos da pesquisa os docentes das Escolas de Enfermagem de nível superior, que tenham atuado na área há mais de quinze anos pelo menos. Assim, os dados coletados por ela referem-se ao período de 1950 a 1970, quando estes sujeitos ingressaram no campo da docência e da prática assistencial em psiquiatria.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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