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A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil Imprimir E-mail
Por Débora Isane Ratner Kirschbaum   
18 de outubro de 1996
Índice de Artigos
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil
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Segundo sugerem os primeiros depoimentos apresentados no início deste tópico (de antigos funcionários do Hospital do Juqueri e do Hospital Juliano Moreira), a falta de mecanismos sistemáticos de seleção e a prática então corrente - e existente até hoje (Fraga, 1993) - das cartas de apresentação e da indicação política para assunção de cargos nos estabelecimentos psiquiátricos governamentais foi uma característica constante também nos processos de admissão de pessoas que ingressavam para trabalhar nos hospitais psiquiátricos paulista e baiano. É preciso ressaltar que a práticas clientelistas assinaladas acima não ocorriam somente nos hospitais psiquiátricos, pois isto também acontecia em outros órgãos da administração pública naquele período. (Vieira, 1984)

Portanto, apesar da ênfase dada aqui à questão do clientelismo político e às distorções a ele relacionadas no estabelecimento psiquiátrico de Barbacena - explicitada nos depoimentos de modo tão acentuado, que poderia até levar a pensar que se tratava de uma situação singular - é difícil supor que os processos de admissão do pessoal de enfermagem nas instituições psiquiátricas de Salvador e São Paulo tenham assumido características diferentes das até aqui assinaladas.

Outro aspecto que se apreende nestes depoimentos é o preconceito existente a época em relação ao doente mental, que provavelmente poderia constituir um entrave à procura por este tipo de trabalho. Entretanto, nota-se que o temor em relação ao doente mental não era um motivo suficientemente forte para afastar as pessoas do propósito de conseguir um emprego numa instituição pública. Para exemplificar um pensamento que aparece frequentemente no discurso da maioria dos componentes deste grupo, veja-se o trecho abaixo. Questionada sobre o que pensava de um hospital psiquiátrico na época em que lá ingressou, uma das entrevistadas relatou que :

"Eu tinha medo, sabe? Porque eu ouvia falar que os loucos..., não conheciam ninguém, que mordiam, que batiam, que fazia e acontecia, não é? Então, eu tinha muito medo mesmo. Mas, então, essa dona, que era dona do lugar (da vaga), eu conversei com ela. Falei: ` Eu quero trabalhar, porque eu tenho vergonha de pedir dinheiro ao meu pai, e ele me dar. Mas eu estou com medo.' Ela disse assim: `Não, você não precisa ter medo não. Você, sabendo lidar com o paciente, eles não te agridem nem nada.' Eu falei: ` Então, tá; tudo bem.' E aí eu vim e assim eu fiz, não é? Lidava com eles como se eu fosse igual a eles também, sabe? " (Atend.Enf. E.S., p.5 )

Pelo exposto até aqui, percebe-se que este grupo de informantes não atribuiu sua escolha pelo trabalho em hospitais psiquiátricos a uma vocação e a maioria deles não expressa claramente uma identificação com a enfermagem psiquiátrica como o principal motivo que os levava a procurar este tipo de ocupação. Nota-se que os informantes ressaltam em seus depoimentos que a opção pelo trabalho nas instituições psiquiátricas decorreu da necessidade de sobrevivência e da possibilidade de emprego ao seu alcance. Um dos aspectos que contribuía para o ingresso destes sujeitos que não possuíam preparo formal específico ou que tinham grau de escolaridade elementar nos estabelecimentos psiquiátricos foram as características apresentadas pelos processos de admissão de funcionários nestas instituições. Conforme se verificou o clientelismo político e a padronagem foram práticas freqüentemente empregadas para se conseguir um trabalho nas instituições psiquiátricas, mas não constituíam o único meio de ingresso.

Observa-se também que quase não existiam processos seletivos sistematizados para recrutar a força de trabalho que seria empregada nos hospitais psiquiátricos e que os mecanismos de admissão adotados nestas instituições não se baseavam em critérios técnicos, o que indica que os dirigentes daqueles estabelecimentos não tomavam medidas concretas para assegurar a contratação de pessoas que apresentassem as características que eles desejavam ver contempladas no pessoal de enfermagem que cuidava de doentes mentais. Neste sentido, nota-se que o nível de escolaridade, por exemplo, que supostamente contribuiria para garantir a entrada de pessoas com algum "preparo cultural" nos hospitais não era um critério levado em consideração na seleção das pessoas que seriam contratadas.

II.3. As motivações do pessoal de enfermagem universitário para trabalhar em psiquiatria em Porto Alegre, São Paulo, Barbacena e Salvador.

Como foi mencionado no início do presente capítulo, os depoimentos das enfermeiras possuem uma especificidade que os diferencia dos demais no tocante às motivações para trabalhar em psiquiatria. Diferentemente dos demais entrevistados, a maioria das informantes deste grupo apontaram uma identificação com o trabalho em psiquiatria como o principal motivo que as levou a escolher o ensino de enfermagem psiquiátrica, assim como o cuidado ao doente mental como campo de atividade. Neste sentido, apesar da singularidade que apresenta cada trajetória individual, foi possível apreender uma certa regularidade entre as experiências pessoais e o contexto social que favoreceram a escolha por aquele tipo de atividade.

É preciso destacar que todas as informantes receberam seu preparo para trabalhar em enfermagem em escolas brasileiras ligadas ao modelo Nightingale, o que já sugere que possuíam uma origem social ou um grau de escolaridade diverso do apresentado pelos demais informantes. Tal suposição é confirmada pelos relatos a seguir, nos quais elas expõem as motivações que as levaram a procurar a psiquiatria como especialidade e o contexto social e familiar que lhes possibilitou escolhê-la com relativa liberdade.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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