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A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil Imprimir E-mail
Por Débora Isane Ratner Kirschbaum   
18 de outubro de 1996
Índice de Artigos
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil
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" Vou te falar uma outra parte de quando eu ingressei em 1939. Tinha um doente que se chamava Emílio Grande. Sem mentira, Débora, acho que tinha 1,9 m. ou 2 m. de altura. Mas era grande (ênfase), era um monstro. Eu não sabia, tinha 20 anos, era um guri. E um enfermeiro - dentre aqueles enfermeiros práticos, entende, ficava com o nome de enfermeiro, porque também não tinha nenhum, eu acho - disse assim para mim : ` Vamos fazer, vamos limpar a cela do Emílio Grande '. E o que ele fez ? Ele abriu. Era, sem mentira nenhuma, a chave para abrir a porta do quarto era deste tamanho assim ( gesto para mostrar que a chave tinha aproximadamente 20 cm. ) Faz me lembrar a chave de São Pedro, igual àquela que aparece nos retratos, não é ? Ele abriu, mas era uma enorme de uma chave. Ele abriu aquela porta, empurrou, abriu a fechadura, empurrou a porta assim (gesto)..., então aparece no meio daquelas palhas - não era colchão não, era só palha - . Levanta aquela monstruosidade de gente. Tu sabes que eu fiquei parado de medo. Me deu um tremor nas pernas de ver aquela monstruosidade sair de cima daquelas palhas. E o enfermeiro, que era antigo, saiu correndo..." E- E lhe deixou sozinho ? " Sozinho (ênfase) E sabe o que o doente fez ? Olhou para mim, voltou e deitou de novo.(...) Tu sabes o que é medo, medo mesmo ? Olhou para mim como uma pessoa olha para uma criança, voltou e foi deitar no meio da palha de novo. Eu acho que ele ficou com pena, porque eu acho que se ele me desse um tapa me matava. E tu sabes que uma das coisas que me parece importante vocês saberem, que naquele tempo, o doente forte era exatamente isso que faziam no São Pedro. Porque não existia tratamento."( Enfo. J.C., p. 58 )

Portanto, ao lado de ações que visavam a higiene e a nutrição do indivíduo, a participação da enfermagem na implementação dos tratamentos psiquiátricos caracterizava-se por medidas voltadas para a contenção da agressividade.

No entanto, segundo julgam os entrevistados do Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo e Salvador, o uso das celas foi atenuado a medida em que as terapias orgânicas [2] foram sendo introduzidas nos hospitais.

Como foi dito antes, com as transformações produzidas pela introdução das terapias orgânicas no interior do espaço hospitalar, a participação da enfermagem na implementação dos tratamentos psiquiátricos adquiriu contornos diferentes. Ampliaram-se as atribuições do pessoal de enfermagem, que passou também a participar da administração de tratamentos como a malarioterapia, a eletropirexia, a insulinoterapia, o choque por cardiazol e a eletroconvulsoterapia.

Outro aspecto que chama a atenção nos próximos trechos dos depoimentos do pessoal de enfermagem é o detalhamento na descrição dos demais recursos terapêuticos empregados, envolvendo, inclusive, a enumeração das etapas que constituíam a execução de cada procedimento.

Conforme mostram os depoimentos, a enfermagem tinha uma participação importante na implementação destes tratamentos, embora o grau de qualificação da maior parte do pessoal de enfermagem que atuava naqueles serviços não fosse compatível com o grau de complexidade implicado na realização daquelas modalidades terapêuticas, que exigiam uma rigorosa observação do paciente e uma intervenção rápida nos casos em que a execução destes métodos provocasse reações que colocassem em risco a vida dos pacientes.

No Hospital São Pedro, a malarioterapia, introduzida nos anos 30 como forma de tratamento dos casos de paralisia geral progressiva e utilizada até os anos 50, não era realizada somente pelos médicos, mas também pelos enfermeiros. Segundo um deles explica, o tratamento consistia no seguinte :

"Eu falei para ti do tratamento da malarioterapia ? Sabe o que é malarioterapia ? A malarioterapia era um tratamento feito devido à sífilis. Então, o que é que eles faziam ? Se fazia, se injetava a malária no paciente. Se tirava o sangue, tiravam o sangue de um doente que tivesse a malária e injetava em outro. Era uma espécie de uma transfusão de sangue. Só que tu tiravas da veia do paciente infectado e tu injetavas no músculo do outro. Então, daí um dia ou dois, começava a febre. Tinha que conservar o paciente com 80 horas de febre, acima de 38o C, não abaixo, sempre acima de 38. Mas, a malária, ela tem a queda, não é ? Ela sobe e desce. Mas tu tinhas que completar as 80 horas. Bom, aí completava as 80 horas, interrompia a malária e aí tu tinhas que fazer uma outra fonte. Tu tinhas que pegar um doente crônico,tinham diversos doentes devido à sífilis. Tu tinhas que pegar outro que não tivesse a sífilis, mas tu tinhas que manter a fonte, porque quando aparecesse um sifilítico, você tinha a fonte para fazer a malária. Bom, ao cabo de uma semana, deixava ele descansar um pouco, porque recuperou um pouco as 80 horas, certo ? E tu entravas com uma série de bismuto. Nem sei quem é que fabricava o bismuto... Era uma continuação do tratamento. Mas o que tratava a sífilis mesmo era a 914, depois veio o Arsenical americano, o 914 era alemão. Tu tinhas que aspirar com aquela seringa de vidro que tu ficou a pegar. Tu tinhas que pegar uma agulha para aspirar e tu tinhas que pegar outra agulha depois para injetar. Porque se tu fizesses com a mesma agulha, tu queimavas todo o braço do paciente. Ele já entrava queimando, o arsênico. E tu fazias uma série, não tinha..., dependia da prescrição médica. E tu sabes que a melhora era assim 90 % ou mais de psicoses da sífilis. Depois, depois, inventaram a eletropirexia, que era um forno (...) E tu sabes que nós mandávamos para o Henrique Roxo, em Pelotas tinha. Nós mandávamos a fonte da malária, quando ele queria fazer a malária lá. Nós mandávamos daqui de avião para ele. Depois que apareceu a penicilina, então terminou a malario. Então começou a penicilina de 3 em 3 horas. Nós fazíamos de 3 em 3 horas a penicilina. " ( Enfo. J.C., p. 35 )

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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