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A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil Imprimir E-mail
Por Débora Isane Ratner Kirschbaum   
18 de outubro de 1996
Índice de Artigos
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil
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A mesma situação é retratada nos demais depoimentos como por exemplo no seguinte, em que a entrevistada descreve sua jornada de trabalho e suas atribuições:

"(Quando ingressei) Eu fui para o (Pavilhão) Rodrigues Caldas, com setecentas mulheres, setecentas pacientes. Então, tinham mais ou menos umas vinte mulheres de cela, que eram aquelas mulheres mais bravas. E naquela época, não havia remédio para nós darmos. Nós tínhamos Amplictil (no Hospital ), mas naquele tempo não tinha. (...) Então, nós trabalhávamos vinte e quatro horas presas ali dentro. E cada dia que a gente ia lá, fazíamos o setor de serviço. Por exemplo: hoje eu ia, tomava conta do pátio das sete da manhã até às seis da tarde. Quando é seis horas (dezoito horas), a empregada do pátio, ou para dona I. de M. ou para dona V., a gente ia descansar. Quando era meia-noite, levantava outra vez, ia pegar o mesmo serviço, que eu havia pego, o pátio, botar as mulheres dentro dos pavilhões, todo mundo. Então, a gente tinha essa responsabilidade. (...) " ( G.V.S., p.1 )

Esta rotina, descrita pelas entrevistadas, repetia-se durante todos os plantões. Entretanto, havia um grande rodízio de funcionários pelos diferentes setores do Hospital-Colônia de Barbacena, de forma que as pessoas não se mantinham fixas nos cargos para os quais eram contratadas. Muitas vezes, durante o tempo em que estiveram empregadas no hospital, as pessoas passavam por diversos setores, não ficando restritas ao Serviço de Enfermagem.

Um dos entrevistados descreve o percurso que traçou no interior do referido hospital, durante os primeiros anos em que lá ingressou:

"Saí da cozinha, depois passei para dentro do pavilhão para cuidar dos pacientes em regime de plantão, não é. Aí, já estava um pouco mais adiantado na escola,tudo, fazia a admissão de paciente, transferência, contagem...Depois, cuidava assim dos pacientes que estavam mais doentes clinicamente, para entregar para o médico, não é? Fazia curativo naqueles que tinham feridas e zelava ali do Pavilhão, não é? Limpeza, orientava os pacientes melhores. Porque não tinha muito empregado naquele tempo." ( Aux.Enf. C..P., p.2 )

Outra entrevistada conta que:

"Era auxiliar de serviço; e não parava em lugar nenhum, porque transferiam a gente. Eu dava 24 por 24. Também (trabalhou) na cozinha, ajudante de cozinha, berçário, lavanderia...Não parava em lugar nenhum. Foram os tempos mais apertados, por que eu tinha que correr atrás dos pacientes. Quando eles apanhavam, eles escapuliam, eles fugiam (...) " (Atend.Enf. G.F., p.1 )

Com o tempo, a rotatividade dos funcionários acabou transformando-se numa característica deste processo de trabalho como se observa no exemplo de um dos funcionários que ingressou como guarda e acabou tornando-se carpinteiro do Hospital-Colônia. Esta rotatividade, talvez motivada pelo pequeno número de funcionários, trazia consequências para o processo de trabalho, na medida em que a passagem por quase todos os setores do hospital, ao mesmo tempo em que possibilitava ao funcionário o conhecimento do funcionamento de vários setores, evitava a especialização em determinadas atividades. Essa forma de organização do trabalho se tornava importante numa instituição que contava com um reduzido número de pessoal.

Enquanto isso, devido à precariedade das condições de trabalho havia uma grande rotatividade de funcionários no Hospital do Juqueri, pois, segundo conta um dos entrevistados, com exceção dos trabalhadores imigrantes de outros estados brasileiros, que encontravam dificuldades para se colocar em outros tipos de ocupação, os paulistanos dificilmente permaneciam trabalhando ali, pelos seguintes motivos:

"Sabe o que é? Eles tinham serviços em São Paulo que ganhavam (recebiam) um pouquinho a mais, não é? Então eles se empregavam aqui no hospital, não é? Mas muitos também não vinham, porque...Muitos chegavam aqui para trabalhar, entravam... Levava o sujeito para a entrevista, passava no meio dos doentes, os doentes vêm todos abraçar, dar a mão...Ah, o sujeito saía daqui tirando o corpo, dizendo: `Eu não fico aqui não.' E ia embora."

E- Porque o senhor acha que isso acontecia?

"Era um trabalho muito penoso aqui. O penoso era o horário, não é? Mas eu fazia um horário das seis (horas da manhã) às seis (da tarde). Doze horas todos os dias (ênfase). Não tinha esse negócio de fazer doze horas e depois ganhar trinta e seis (horas) não. Hoje parece que faz doze horas e ganha trinta e seis, não é? Tinha só duas folgas por mes. Mas dava gosto trabalhar. Os doentes ajudavam, tinha os pavilhões bem limpos." (Atend.Enf.J.S., p.4)

Passa-se agora ao exame da organização espacial destes estabelecimentos psiquiátricos, a partir da qual tentava-se ordenar as "multiplicidades" existentes no interior do espaço asilar e criar condições materiais para que o trabalho de enfermagem pudesse ser realizado segundo os objetivos que lhe era atribuído nas instituições psiquiátricas examinadas.

IV. 2. A organização espacial que servia como base e como instrumento para as práticas de enfermagem

Ao longo do presente estudo já foi diversas vezes assinalada a importância da distribuição espacial como técnica disciplinar. A utilização de tal procedimento como um elemento constituinte do modelo terapêutico adotado pelos hospitais psiquiátricos no referido período é um dos aspectos depreendidos dos relatos. Verifica-se que os entrevistados recorrem constantemente às descrições da organização espacial dos hospitais com o intuito de explicar melhor o trabalho que desenvolviam, de ilustrar as dificuldades que enfrentavam, de falar da forma como se distribuíam nos estabelecimentos. Mas, além disso, as descrições sobre o modo de organização do espaço em que atuavam possibilita uma primeira aproximação das características do trabalho de enfermagem e mais especificamente das atividades que lhes eram destinadas.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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