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A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil Imprimir E-mail
Por Débora Isane Ratner Kirschbaum   
18 de outubro de 1996
Índice de Artigos
A trajetória histórica das práticas de enfermagem no campo da assistência psiquiátrica no brasil
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Observa-se que, a escolha do Hospital São Pedro como campo de estágio não se deveu exclusivamente ao fato de ser o principal estabelecimento psiquiátrico público em Porto Alegre. Conforme sugere a entrevistada, inicialmente, o que justificava sua adoção como campo de aprendizagem eram as possibilidades que oferecia em termos de ensino de psicopatologia, devido à grande quantidade de internados e à variedade de quadros mórbidos, em diferentes estágios de evolução que eles apresentavam. Neste sentido, em seus primórdios, o ensino de Enfermagem Psiquiátrica desenvolvido nos anos 50, em Porto Alegre, assemelhava-se ao ensino de psiquiatria oferecido aos enfermeiros do Hospital São Pedro pelos médicos, nas décadas anteriores e ao que a docente da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo desenvolvia no Juqueri. Isto é, tratava-se de um ensino baseado na descrição de sintomas e na classificação das doenças . Portanto, correspondia a transmissão de um saber tipicamente médico.

Todavia, a despeito das boas relações que mantinham com outras categorias profissionais, a entrada da docente e das alunas de enfermagem da UFRGS no Hospital São Pedro encontrou resistências por parte das irmãs de caridade que trabalhavam naquele hospital. E estas, constantemente criavam dificuldades ao estágio e à atuação das enfermeiras, tal como se verifica no depoimento a seguir:

"(...) Já tínhamos algumas assistentes sociais. Então, a gente fazia uma equipe, ou seja, um embrião de uma equipe terapêutica. E nós chegamos a fazer coisas muito bonitas, inclusive nós fazíamos teatro. Isso lá por 56, até 58. Nós fazíamos teatro com as pacientes e tínhamos até palco. E nós trabalhávamos muito também com o pessoal da medicina. E fomos neste ritmo com as coisas muito tristes a bem da nossa história. O hospital era de freiras, então, elas, as freiras, achavam que as pacientes não tinham o direito de fazer coisas boas, gostosas, brincar, e que aquilo era besteira. Parecia que estavam ali mais ou menos como que para pagar pecados. Então, fazíamos uma roda no pátio para tocar acordeão, dançar, cantar aquelas músicas folclóricas. todas sabiam. E as freiras vinham, desmanchavam nossa rodinha e queriam começar a rezar o terço...Ave Mari a...E todo mundo acompanhava as freiras e terminava nossa brincadeira. Inclusive tinha uma paciente jovem, mais ou menos dezesseis anos, que eu dei como paciente para uma aluna. Eram três pacientes para cada aluna, para observar de perto, fazer um relatório e depois discutiam com a gente, no pátio. Essa paciente estava grávida e aí começamos a ensinar coisas para ela fazer para o bebê, (...). E aí, a paciente sumiu (ênfase). E nós procuramos no Hospital inteiro. Lá haviam quatro mil pacientes. Procuramos, até que a encontramos na cela. Perguntei: `O que ela fez para estar na cela, estava agitada?' (...) E me responderam que era porque estávamos coniventes com o pecado dela. `Mas que pecado dela?' Imagine. `Ela está grávida e vocês estão ensinando a fazer roupas para o nenê e ele é fruto do pecado'. Pois então, tivemos que mudar a mentalidade de tudo isso. Havia muita gente boa, lá, porém também haviam coisas assim, que estavam enraizadas (...) E nós tínhamos que falar com o Diretor para tirar pacientes da cela e, no dia seguinte, muitas estavam novamente na cela. Então, foram lutas e coisas, uma atrás da outra..." (Enfa. N.M.Z., p.2)

Vê-se que as mesmas resistências que as religiosas ofereceram à primeira Escola Profissional de Enfermagem repetiram-se quando da chegada da Escola de Enfermagem da UFRGS. Além disso, este depoimento revela o conflito existente no hospital entre duas concepções de doença mental e de tratamento da mesma. A primeira, representada pelas religiosas, que percebiam a doença mental como resultado de uma falta cometida pelo paciente e que, por isto, deveria ser punido e a segunda, defendida pelas enfermeiras, que viam a loucura como entidade nosológica e que, em função disto, procuravam preservar os direitos dos pacientes e propunham formas de tratamento mais humanizadas.

Enquanto isso, o ensino de enfermagem psiquiátrica na Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia (UFBA) dava-se da seguinte forma:

"Nosso professor foi o professor Norival Sampaio, ele era assistente de psiquiatria na Faculdade de Medicina. Dr. Nelson Pires era o catedrático, naquele tempo não era titular, era o catedrático, e ele, então, como catedrático, ele era o chefe da enfermaria, então ele fazia reuniões, quer dizer, eu como enfermeira chefe da clínica, eu participava, e foi uma pessoa que me ajudou com livros e informações, quer dizer, porque eu era uma recém-formada na ocasião em que eu trabalhei. Bom, eu formei, comecei a trabalhar em 57." (Enfa. S.S., p.4)

Ao assumir a docência da disciplina, ela passou a implementar um ensino de enfermagem psiquiátrica que possuía as seguintes características:

"Eu vim para a escola (de enfermagem da UFBA), eu participei muito, eu peguei a enfermagem psiquiátrica, assim quase que nascendo, quer dizer, então, eu organizei muita coisa baseada nas coisas que eu aprendi de Tereza, mas já então com o curriculum mais diferenciado, com mais número, uma carga horária que nós conseguimos aumentar, e aí começamos a fazer esse tipo de estágio, onde a aluna tinha a parte teórica. Eu assumi a parte teórica que antes eram os professores da Faculdade de Medicina, eu já comecei a assumir toda a parte teórica, e aí eu fui indo, e dividíamos, fazíamos estágios aqui, no Hospital das Clínicas, considerando, vamos dizer, nós dávamos às alunas essa parte, considerando o ideal, quer dizer, no que a gente podia fazer de ideal. Então nós tínhamos a parte da Terapia Ocupacional, foi instalado o Hospital Dia, mas com um grupo pequeno de pacientes, e depois nós íamos para o Juliano Moreira, onde havia aquela abundância de pacientes com toda a sintomatologia que a gente quisesse, delírios.(...)" (Enfa. S.S, p.10)

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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