Comunicação
Artigos
Nenhum ser humano será bonsai | Nenhum ser humano será bonsai |
|
|
| Por Willians Valentini | ||||||||
| 05 de julho de 2001 | ||||||||
Página 1 de 6 Um pouco do que temos feito juntos. Ou, do velho Sanatório para uma agência para o desenvolvimento humano.Há pouco mais de dez anos, o que a situação Sanatório "Dr. Cândido Ferreira" oferecia aos seus 194 pacientes e 70 trabalhadores não era diferente das situações que oferece até hoje a imensa maioria dos hospitais psiquiátricos brasileiros: projetos de manutenção de imensos jardins de bonsais, onde todos compartilham um pacto que mantém um estado de "aqui não se pode crescer". Como se sabe, os bonsais nada mais são do que plantas que foram induzidas a desistir de crescer. Essa desistência é conseguida pela ação humana através de poda, tanto das raízes quanto dos galhos das plantas, já nos primórdios do crescimento. Contribui para isso o plantio em vasos que oferecem pouquíssima área de expansão para o crescimento das raízes.[1] Ser obrigado a passar o tempo no interior do pátio do hospital psiquiátrico pode ser comparado com a situação dos bonsais. A situação da imensa maioria de internados em hospitais psiquiátricos, assemelha-se à das plantas destinadas a serem bonsais. Não só os pátios dos hospitais psiquiátricos são jardins de bonsais. Há também salas de aula, áreas de lazer cheias de proibições, condomínios, clubes, associações, sindicatos, enfim, campos relacionais nos quais as interações humanas se dão de maneira muito semelhante ao modo de se produzir bonsais. No caso dos hospícios, mas não só neles, a miséria relacional é a "pouca terra", o ambiente controlado, mínimo, miserável, concebido para o impedimento do desenvolvimento das raízes que compõem a identidade de cada um dos internados. Os pátios, as salas dessa ou daquela especialidade, ou desse ou daquele doutor, são invenções destinadas a aprisionar o internado no presente do passado, da repetição da tecnologia da consulta, na qual o internado é obrigado a revelar eventuais progressos, que poderão ou não ser valorizados pelo profissional mobilizado na busca da evidência clínica dos inúmeros quadros psiquiátricos que foi treinado para identificar. O modo de fazer e de cuidar e a tecnologia que o próprio profissional oferece raramente entra no campo da avaliação. O foco está frequentemente dirigido ao doente que deve ter seu "defeito" corrigido. O aprisionamento no presente do passado, há pacientes que conseguem permanecer aprisionados no presente do presente, contribui para fazer com que o paciente pacientemente desista de imaginar seu futuro. O futuro admitido é o muro alto, é a porta trancada, é a hora de ser acordado, de obedecer o horário do banho, o horário de tomar café, de tomar o remédio, de almoçar, de tomar de novo o remédio, o horário da atividade, de semanalmente "passar" pelo médico, de escutar que não, ainda não chegou a hora de sair, de ir à teó, de jantar, de tomar o remédio, de tomar o chá da noite, de dormir. Subalternidade e obediência todo o tempo. Tudo sendo operado num modelo de poda. Hierarquia, obediência, subalternidade e poda, todos os dias. A situação do Sanatório era de aprisionamento no passado. Esse aprisionamento tornava a instituição refém de um modelo anacrônico que enclausurava a loucura e mantinha profissionais e pacientes operando de acordo com o "modelo do dano"[2]. Paradoxalmente, ao mesmo tempo a conjuntura externa de implementação do Sistema Único de Saúde, pós Constituição, trazia a novidade saudável da responsabilidade municipal na gestão das ações de saúde. Saudável por quê? Porque se renovava a esperança de se poder, municipalmente, ampliar o controle social sobre os serviços de saúde, buscando-se assim aumento do exercício de cidadania e consequentemente mais chance de aumentar o respeito ao direitos dos cidadãos, em situação de doença, de serem assistidos com respeito e dignidade. A co-gestãoO primeiro ato instituidor do processo de mudança na mentalidade que atingiu o Sanatório e a comunidade de Sousas, foi o anúncio, em 1990, de que a instituição filantrópica passaria a ser co-gerenciada pela Prefeitura Municipal de Campinas. A responsabilidade compartida representada pelo convênio de Co-gestão, aprovado em lei municipal de maio de 1990, constituiu a primeira oportunidade para se proceder mudanças no velho hospício do arraial de Sousas[3]. Algumas decisões favoreceram o processo de mudança nos modos de ver, de pensar e de agir. Um deles foi o conjunto de alterações propostas para o Estatuto da entidade. A alteração incluiu a criação do Conselho Diretor da entidade, com composição ampliada, que iniciou seus trabalhos incluindo em sua formação representantes do governo municipal, dos trabalhadores do Sanatório (escolhidos em eleição interna), das universidades, do governo do Estado, e da associação filantrópica mantenedora do Sanatório. 54,55
|
||||||||
| Última Atualização ( 22 de junho de 2008 ) | ||||||||
| Menu Principal |
|---|
| Busca interna |
|---|



