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O ato de ler: que posição ocupa a leitura no tratamento de sujeitos psicóticos ? | O ato de ler: que posição ocupa a leitura no tratamento de sujeitos psicóticos ? |
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| Por Débora Isane Ratner Kirschbaum | |||||||
| 15 de março de 2003 | |||||||
Página 1 de 5 O ato de ler :A realização de atividades envolvendo a leitura de contos de fada, de jornais ou a produção de textos literários no tratamento de sujeitos psicóticos é um tipo de intervenção cada vez mais difundida em serviços de saúde mental ( FERREIRA, 1991; MAIA, M.C. 1997). Se antes o emprego deste tipo de atividade com finalidade terapêutica era adotado em algumas experiências isoladas, com o advento da reestruturação da assistência psiquiátrica e a decorrente expansão dos equipamentos de saúde de nível intermediário (CAPS, NAPS, HDs), o recurso às atividades terapêuticas grupais que envolvam a produção de literatura e/ou o seu consumo pelos sujeitos que freqüentam este serviço começaram a crescer a diversificar-se. Apesar disso, a riqueza de situações que podem emergir da realização deste tipo de atividade e os efeitos terapêuticos que delas podem advir, quando não são empregadas apenas com a finalidade de proporcionar uma distração ou uma ocupação aos usuários, não me parecem ser objeto da devida atenção nem de suficiente problematização. Este trabalho tem como intuito relatar a experiência que venho desenvolvendo num serviço de saúde mental junto aos sujeitos que freqüentam o atualmente chamado Atelier de Leitura, bem como expor a elaboração teórica que a partir dela vem sendo possível construir na direção de realizar uma clínica das psicoses. Para tanto, exponho alguns momentos que marcaram o percurso que percorri para formular o dito dispositivo, ressaltando as movimentações que foram ocorrendo no modo de participação dos sujeitos que frequentavam as sessões do Atelier ao longo do período de 18 meses e as mudanças introduzidas no modo de conceber tal atividade em decorrência da leitura que as mesmas possibilitaram. De Atelier de Poesias a Atelier de leitura : reconstituindo um percursoEm 1996, em meio a uma reestruturação do modelo de atendimento que adotávamos no Hospital-Dia, optamos por diversificar a oferta de modalidades de atendimento em substituição ao modo standartizado sob o qual estava organizado o tratamento, através dos módulos estruturados exclusivamente através de atendimento grupal (grupo de verbalização, de medicação, de atividades) (VICHI, T.; KIRSCHBAUM, D.I.R.K; RIBEIRO,C.S., SOUZA, S.F., 1996) Visávamos, com isso, aumentar a oferta de dispositivos que propiciassem uma singularização no atendimento e oferecessem condições mais propícias para que se pudesse realizar uma escuta que contemplasse certas particularidades que não apareciam no modelo anterior em virtude da ênfase em apreender as manifestações dos usuários a partir dos fenômenos grupais. Quando formulei a proposta de estruturar um Atelier de Poesias, tinha em vista uma certa clientela, que me parecia necessitar este tipo de dispositivo, e um certo modo de operar, que possibilitasse escutá-los de um jeito diferente do que era possibilitado pelos outros dispositivos (tais como atendimento individual, psicoterapia de grupo, terapia ocupacional) . A ClientelaTal clientela era composta majoritariamente por sujeitos jovens, psicóticos, que, em decorrência de um quadro bastante grave, com presença de alucinações auditivas e ideação delirante, tinham sua reinserção familiar, ocupacional e social comprometida, necessitando de atenção constante e intensiva. Quase todos possuíam grau de escolaridade secundário completo e, em ocasiões anteriores, haviam manifestado algum tipo de interesse por livros e por produção literária. O modo de operarA opção por denominar tal dispositivo não como grupo, mas como Atelier devia-se ao propósito de diferenciar esta atividade das demais realizadas coletivamente ( e que, por sua natureza requeriam uma leitura grupal) e de marcar a entrada dos sujeitos de uma maneira diferente, ou seja, tratava-se de uma atividade na qual o que estava em questão não era o modo como o indivíduo se posicionava no grupo, mas a relação que cada um estabelece com o texto escrito e o que ela representa na trajetória de cada um em direção a uma singularização, possibilitada pela escolha, por exemplo, do que vai ler, de quanto vai ler, de como vai ler. A opção inicial por trabalhar com poemas deu-se por uma suposição, depois revista, de que por favorecer e implicar num certo grau de metaforização, este estilo literário propiciaria um trabalho em que a atribuição de sentidos fosse mais ampla do que em outros tipos de textos, como por exemplo, a prosa, sendo um modo de introduzir a questão da escolha e da subjetividade. Desde a sua fundação, em 1997, o Atelier funciona semanalmente e suas sessões tem a duração de em média duas horas. Como se verá a seguir, o modo de operar tal dispositivo foi se transformando ao longo do tempo, em virtude das próprias observações e elaborações teóricas construídas a partir da leitura que foi possível fazer do que era lido e dito pelos pacientes a cada sessão. 46,47
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| Última Atualização ( 22 de junho de 2008 ) | |||||||
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